terça-feira, 1 de setembro de 2015

A obsolescência de uma imprensa econômica obcecada por indicadores obsoletos

Foto Brendan Mcdermid/Reuters
"Apenas as soluções que promovam o crescimento econômico com impactos positivos em termos sociais e ambientais merecem a denominação de desenvolvimento." (Ignacy Sachs)

Cada vez mais acadêmicos e economistas do mundo inteiro afirmam que os indicadores macroeconômicos tradicionais já não são mais suficientes para orientar as decisões econômicas e medir os resultados das políticas públicas dos países e de seus respectivos governos.

De acordo com Michael Porter, Professor da Harvard Business School: "As armadilhas de se concentrar só no PIB são evidentes nas conclusões do Índice de Progresso Social 2015, divulgado em 9 de abril. O IPS, criado em colaboração com Scott Stern do MIT e a entidade sem fins lucrativos, Social Progress Imperative, mede o desempenho de 133 países em várias dimensões de desempenho social e ambiental. É o quadro mais abrangente desenvolvido para medir o progresso social e o primeiro a medir o progresso social independentemente do PIB".

Na opinião de um número cada vez maior de pesquisadores econômicos, no fim das contas é o progresso social que realmente importa na hora de se considerar o desempenho de um país. Mas aqui no Brasil, os jornalistas econômicos dos principais meios de comunicação ainda estão apegados aos indicadores tradicionais. Suas realidades ainda são construídas a partir de critérios ultrapassados, que não levam em conta indicadores de desempenhos ambientais e sociais. Ações de sustentabilidade são um mantra onipresente nos discursos jornalísticos, mas de pouca utilidade por aqui. Todos citam a importância das boas práticas ambientais, como panaceia corporativa, mas ninguém se interessa em efetivamente medi-las e avaliá-las.

Politicas sociais também são desprezadas no universo da imprensa brasileira. Apesar de serem frequentemente mencionados em entrevistas com pensadores internacionais, especialmente em programas pretensamente mais sofisticados, exibidos pelas emissoras de TV a cabo, indicadores sociais constam nas pautas jornalísticas apenas para ampliar o cardápio de variedades a ser apresentado a um público que se pretende cosmopolita e progressista. No entanto, mesmo que tais indicadores estejam disponíveis para serem aplicados à realidade brasileira, nenhum deles é levado em consideração por esses analistas econômicos. Tampouco pelo público consumidor do noticiário econômico. Na hora de formar e disseminar opiniões, o que conta mesmo são os velhos indicadores de sempre. Todos voltados para o público "investidor". O que importa mesmo é a proteção das aplicações financeiras.

Aqui no Brasil, o fato é que jornalistas econômicos são movidos pelas pautas financeiras. Um jornalismo monetarista. E adotam o lema do "quanto pior melhor". Interessante como parecem se ofender a cada vez que uma agência de riscocomo a Standard & Poor's, mantém o grau de investimento do Brasil ou o rating da Petrobras. E, simetricamente, comemoram quando o sacrossanto grau de investimento cai. Triste um país com formadores de opinião tão parciais, que enxergam a economia de um país como mera expressão de uns poucos indicadores obsoletos e ultrapassados. Indicadores econômicos que já estão sendo abandonados, como critério de boa gestão pública, por economistas ortodoxos, como o insuspeito Michael Porter, e até pelas instituições mais conservadoras do cenário mundial, como o FMI, o Banco Mundial e as próprias agências de risco. O conservadorismo de nosso jornalismo econômico faz com que publicações internacionais como The EconomistThe Wall Street Jounal e Financial Times pareçam fortalezas progressistas e revolucionárias.

Fonte: Por que o Progresso Social Importa