terça-feira, 4 de agosto de 2015

Por um punhado de dólares, por uns dólares a mais

Clint Eastwood em “O bom, o mau e o feio” (1966)
Direção de Sergio Leone 
A trilogia dos dólares, de Sergio Leone: "Por um punhado de dólares"; "Por uns dólares a mais" e "Três homens em conflito ou O bom, o mau e o feio"

O neoliberalismo é o "modelo" econômico mais perverso que o capitalismo já ofereceu à humanidade. Tal qual o mito da caverna de Platão, o capital no século XXI nos arremessa para um mundo de aparente prosperidade, sustentado por um consumo sombrio e pela obscuridade da exploração. Os instrumentos que projetam as sombras na caverna são os arautos da nova economia: jornalistas, economistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e políticos profissionais. Gente interesseira e interessada. Gente que ganha a vida em manter dominados e explorados obedientes e aprisionados na escuridão da caverna, sem perceber que eles próprios não são a luz em si, mas apenas instrumentos de projeções sombrias. Seres tão dominados quanto aqueles que vivem no interior mais profundo da caverna. Apenas um pouco menos explorados. Até que chega o dia em que a casa cai. E são sumariamente descartados. Para os que tentam sair da caverna, uma esperança de luz. Uma ponta de sol. Mas tão logo regressam para reencontrar seus antigos companheiros de caverna, e tentam convencê-los de que há uma luz alternativa a esse mundo de trevas do capital financeiro e da ideologia neoliberal, no qual são prisioneiros, passam a ser tratados como arruaceiros e são imediatamente excluídos, julgados e condenados. Pelo mercado e pela sociedade. Por dominantes e dominados. Condenados à obsolescência. Condenados à irrelevância. Condenados à inviabilidade. Descobrem, na própria pele, que na sociedade de hoje tudo é escuridão. Frieza. Cálculo. Cinismo. Na caverna não há prisioneiros ou libertos. Apenas cavernas escuras. As cavernas somos nós. Deixamos escapar toda a luz do mundo e nos deixamos aprisionar por tão pouco. Por um punhado de dólares. Vivemos em conflito. Ridicularizamos o bom. Admiramos o mau. E nos tornamos os feios. Por uns dólares a mais.