quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Os míticos tubarões da globalização financeira

"Se for consciente, é cínico. Se bem-intencionado, é ingênuo."
(Roland Barthes)

Hoje a bolsa de valores fechou com maior valor desde novembro de 2014. No início da semana, especuladores fizeram seus ataques agressivamente. Os preços das ações baixaram abruptamente. Algumas quase viraram pó. A imprensa alardeou o caos. Seguido do apocalipse. Homens engravatados deram entrevistas apresentando justificativas técnicas. Mulheres eficientes e poderosas escreveram matérias em cinquenta tons de gravidade. Relações de causa e efeito. Análises gráficas. Tabelas. Estatísticas. Correlações. Regressões. Engenheiros, matemáticos, físicos e até economistas. Muitos jornalistas. Produtores do mito. Gente séria que se leva a sério todos os dias do ano. Seriedade 24 horas por dia. Sete dias da semana. Ritual. O mundo financeiro não dorme jamais. Enquanto isso, na economia real, nada de relevante aconteceu que justificasse toda essa turbulência. Mas a poderosa linguística do mercado financeiro causou impactos reais nas economias do mundo inteiro. Mais renda e riqueza são transferidas aos vencedores de sempre. Os assustados se livraram de suas ações a preços depreciados. Alguns dias depois, os tubarões venderam a preços atraentes o que compraram barato. Prejuízos e lucros realizados. Amanhã, talvez uma calmaria para que todos se sintam seguros e as bolsas de valores voltem a aparentar ser um austero local de negócios, normal e rotineiro, povoado por gente racional, bem informada e tecnicamente bem preparada. O mito não pode ser desmitificado. Como escreveu Roland Barthes: "a função principal do mito é transformar o que é contingente em natural". Os rituais garantem sua existência. Uma arena tranquila e poderosa, que promove liquidez, eficiência e ganhos justos aos mais adaptados para lidar com os desafios do mercado financeiro globalizado e desregulamentado. Até o próximo ataque especulativo. Um novo ciclo de turbulências recomeça. Os predadores fazem um novo círculo em torno das presas. Ciranda sem fim. Os tubarões financeiros atacam novamente. Tudo deve parecer natural. Nada político. Uma força da natureza. E assim caminha a "inexorável" globalização financeira.