domingo, 16 de agosto de 2015

O rei filósofo de Platão nas democracias pós-modernas

A Escola de Atenas (1509–1510)
Afresco de Raphael Sanzio - Vaticano
 
“O discurso intelectual dominante une-se ao pensamento das elites censitárias e cultas do século XIX: a individualidade é uma coisa boa para as elites; torna-se um desastre para a civilização se a ela todos têm acesso." (Jacques Rancière, Ódio à democracia)

A frase "o brasileiro não sabe votar" esconde um ódio velado à democracia. Se voto em algum candidato, de um determinado partido e considero o voto de outro cidadão, que votou diferentemente de mim, como um voto errado, equivocado, não por representar outra visão de mundo, diferente da minha, mas por ser decorrente da suposta ignorância ou da falta da educação formal deste cidadão, estou, conscientemente ou não, julgando o meu voto, como a única opção legítima.

Claro que meu voto representa uma visão de mundo, a que eu escolhi e, portanto, nesta visão de mundo é o voto correto. Mas quando eu considero um determinado voto superior por ser o único legítimo, então desconsidero que existam outras visões de mundo possíveis. Apenas a minha visão é a correta. E se eu julgo superior, em si mesmo, um voto em detrimento do outro, é porque julgo que há um único voto certo possível e todos os outros serão votos errados. 

Ao fazer isso, estabeleço uma espécie de gabarito para o voto. De um lado, o voto correto, bem pensado, bem fundamentado. Do outro, o voto ignorante, fruto da incapacidade daquele que vota. Ao agir assim, coloco-me acima daqueles que votaram em outra proposta. E só se pode julgar algo como inferior quando se considera que existe algo superior. 

Portanto, se eu considero meu voto superior, de alguma forma estou me julgando superior, membro de uma espécie de elite moral e intelectual da sociedade. E se eu considero uma parcela dos eleitores ineptos ao voto, é porque considero alguma outra parcela apta ao voto, sendo esta superior àquela. E se considero que a parcela inferior, inepta, não sabe votar e que, portanto, deveria ser desconsiderada na contabilidade dos votos, então penso que os votos deveriam ter algum critério de peso. 

Por exemplo, o voto correto, das pessoas escolarizadas, "esclarecidas", deveria valer talvez dois votos, enquanto o voto dos medianos deveria valer um voto e o voto dos "ignorantes", despreparados, analfabetos funcionais etc. deveria valer meio voto ou quem sabe voto nenhum. Feita essa ponderação, os votos seriam contabilizados. E o critério de quem receberia peso maior seria dado evidentemente por quem assim se considera superior. Democraticamente?

Para mim, caso pensasse assim, fosse eu eleitor de qualquer partido, o melhor seria não a democracia, mas a aristocracia (o governo dos melhores). Com os devidos ajustes históricos, o meu modelo de governante poderia estar muito bem representado pela República de Platão, que vislumbrava o governo ideal aquele de um rei pertencente à casta dos filósofos. A democracia representaria a expressão da decadência. A casta de hoje seria representada pelos guardiões do livre mercado; e o rei filósofo seria um rei tecnocrático, um cientista da administração, um economista. Ou quem sabe um sociólogo neoliberal. 

Muito bem, esse é um modo legítimo de pensar. Não há nada de errado em pensar desta forma. Nietzsche também pensava assim. E muitos outros filósofos. A humanidade pensou e agiu desta forma, ao menos suas elites assim o fizeram, durante a maior parte de sua existência. Ou pelo menos desde os primeiros registros históricos. A diferença é que em outros tempos esse pensamento não se camuflava em discursos democráticos. Pensava-se assim e ponto final. Hoje não é de bom-tom. 

No fundo as elites sempre odiaram a democracia. Mas ninguém hoje em dia assume que é contrário à ela. Acreditar que o processo democrático não pode se sustentar na igualdade e universalidade dos votos, e não pode confiar na representatividade e legitimidade de cada eleitor, é negar a essência da própria democracia. Em outras palavras, é o mesmo que um ateu suplicar aos deuses que eles não existam, para que ele, ateu, esteja certo em crer na sua descrença. Uma contradição incontornável.