domingo, 16 de agosto de 2015

Manifestações em tempos de cidadãos-consumidores

“Numa sociedade de consumidores, todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser um consumidor por vocação.”  (Zygmunt Bauman)

Vivemos em uma sociedade de consumo. Nosso papel de consumidor está presente em nossas vidas cotidianamente. Ao consumirmos, temos a legitimidade e o direito de exigir que o fornecedor cumpra com o combinado na transação comercial que originou a relação de consumo. No entanto, os consumidores não participam do processo produtivo daquilo que estão consumindo. Pelo menos não diretamente. Este distanciamento faz com que o comportamento do consumidor, quando insatisfeito, reflita seu descontentamento ao agir apenas no sentido de exigir seus direitos contratuais, que são protegidos por lei. 

Este comportamento, legítimo quando estamos no papel de consumidores, muitas vezes nos faz agir de forma análoga no papel de cidadãos. Agimos como cidadãos tal qual consumidores insatisfeitos. Entretanto, como cidadãos, ao contrário de quando estamos numa relação de consumo, fazemos parte daquilo contra o qual nos opomos. Essa é uma diferença sutil mas fundamental. Enquanto o consumidor é mero usuário e não participa do processo produtivo daquilo que consome, o cidadão, por sua vez, é coprodutor da realidade política, econômica e social ao qual está inserido. Mesmo quando a ela se opõe. Essa diferença sutil nos coloca, como cidadãos, em uma situação muito mais complexa do que numa relação de consumo. Mas como estamos mais bem treinados e habituados a consumir do que a exercer a cidadania plena, acabamos confundindo os papéis. Assim, agimos como cidadãos da mesma forma que agimos como consumidores.

Tal comportamento nos tira a responsabilidade sobre os rumos do país e faz com que nossas críticas se restrinjam a indignações que, embora importantes, são insuficientes ao pleno exercício da cidadania. Valemo-nos apenas dos nossos direitos de cidadão mas nos eximimos das obrigações correspondentes. Tornamo-nos intocáveis e em nada tocamos. Ficamos higienizados e limpos. Situação confortável e reconfortante. Mas a democracia não é um lugar confortável. É espaço de conflitos, de lutas, de confrontação de valores e, sobretudo, de muito trabalho. O momento é de pensar o país profundamente. Hora de ter a coragem para abandonar as generalizações simplificadoras e compreender a complexidade de uma país historicamente contraditório e instável. E aceitar o jogo democrático com todas as suas imperfeições.

Conviver com manifestações, quando elas não nos representam, é um exercício de tolerância democrática. Que as manifestações continuem, com seus defensores e detratores, à direita, ao centro e à esquerda. Mas que continuem não como uma panaceia a resolver todos os nossos problemas seculares. Que não sejam um fim em si mesmas mas um meio entre muitos outros possíveis para produzir soluções efetivas. Que não sejam mero reflexo de uma atitude consumidora, mas uma possibilidade para se produzir um Brasil melhor. E que nós brasileiros, como atores políticos de um país democrático, sejamos menos consumidores e mais cidadãos.