domingo, 16 de agosto de 2015

Manhã tão triste manhã de um dia que não era Carnaval

Corcovado e o Cristo Redentor
Foto Isabela Kassow
Democracia pós-moderna, manifestações fragmentadas, demandas difusas, manhã de sol, Copacabana, Rio de Janeiro, manifestação pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff, tensões dispersas, sensações ambíguas, desconforto estético e vazio ético: uma estética de corpos disformes, deselegâncias indiscretas, multidões vestindo camisas da CBF e similares, roupas de grife, oficiais e falsificadas, empunhando bandeirinhas do Brasil, que tremulavam timidamente enquanto mãos, braços, celulares e pernas se movimentavam mecanicamente, seres robotizados, manifestantes de shopping center, cabelos pintados, alisados, minissaias, turistas desavisados, crianças adestradas, adultos infantilizados, idosos festivos, imprensa vampira, papéis nas calçadas, caladas, latas de cerveja, ambulantes, Bolsonaros, Cunhas, Serras, Sarneys, degradantes, sorridentes, surreais, barrigas enormes saltando de sungas minúsculas, farturas, excessos, Bótox paralisando rostos maquiados num dia de sol, corações endurecidos, mentes entorpecidas, mais preocupadas com as "selfies" tiradas ao som confuso e mesclado de Aquarela do Brasil, na voz de Gal Costa, Que país é esse, da Legião Urbana e Para não dizer que não falei de flores, do Geraldo Vandré, misturadas às faixas de apoio à PM, gritos e cartazes pela volta do regime militar, por liberdade, por democracia, por uma ditadura, pelo fim do PT, pela prisão de Lula, pelo impedimento de Dilma, pela posse de Aécio Neves, retratos de um país que já foi do futebol, e agora é o país do Merval, Pereira que nunca foi à Madureira, tristeza sem beleza, tudo contraditoriamente condensado e embalado em um único movimento que, no campo da ética, parece tudo tolerar, tudo aceitar, todas as pequenas e grandes corrupções cotidianas, sonegações, assédios, extorsões, simulações, traições, manipulações, mentiras e todos os vícios privados e também todos os vícios públicos, de qualquer partido, à exceção do PT, de Dilma Rousseff, a solitária bode expiatória de um tribunal em movimento, cujos juízes são homens e mulheres autointitulados de bem, livres de vícios morais, que tudo sabem, tudo podem, tudo julgam, tudo num fôlego só, nessa manhã, tão triste manhã, que não era de Carnaval, nessa Copacabana, princesinha de um mar intimidado pelas sombras de tantos prédios que escondem o Redentor, que insiste em abrir os braços para uma cidade cada vez mais distante do tempo em que foi maravilhosa.