segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Globalização financeira: uma guerra prolongada e desnecessária

A Batalha de Rocroi, Augusto Ferrer-Dalmau
"Não é monstruoso que esse ator aí,
Por uma fábula, uma paixão fingida,
Possa forçar a alma a sentir o que ele quer,
De tal forma que seu rosto empalidece,
Tem lágrimas nos olhos, angústia no semblante,
A voz trêmula, e toda sua aparência
Se ajusta ao que ele pretende?
E tudo isso por nada!

Por Hécuba!"
(Hamlet, William Shakespeare)


A bolsa de valores da China está em queda. Bolsas do resto do mundo despencam. Em setembro os EUA deverão subir sua taxa de juros. Investidores internacionais migrarão suas aplicações para títulos da dívida pública norte-americana. Países emergentes já sofrem ataques especulativos em suas moedas. As reservas em dólares desses países começam a desabar. Os preços das commodities continuam em queda. O preço do barril de petróleo é o mais baixo dos últimos seis anos. O PIB da maioria dos países encolhe. A atividade econômica se contrai ainda mais. Setores lucrativos são pressionados pelos "mercados" por mais cortes de empregos. Redução de salários. Terceirização. Precarização. Consumo por endividamento. Cartões de créditos explodem. Execuções. Desapropriações. Criminalidade. Industrias se transformam em empresas financeiras. Empregos são perdidos pelo contágio letal da economia especulativa. As atividades produtivas são destruídas. O meio ambiente continua esquecido. A concentração de renda e riqueza são acentuadas. Os ricos dos países ricos ficam cada vez mais ricos. E os ricos dos países pobres também. Os ricos de todos os países triunfam. Países africanos continuam abandonados à própria sorte. Assim como os pobres dos países pobres. E os pobres dos países ricos. Os pobres de todos os países descartados. Gastos públicos são sacrificados. Ajustes fiscais. Troikas. Países emergentes se tornam cada vez mais obedientes. Agências de risco mandam e desmandam. Megainvestidores realizam lucros. Nações quebram. Banqueiros celebram. Economistas se levam a sério. Jornalistas econômicos se sentem importantes. O tom grave domina os jornais. Monetaristas e conservadores pregam mais austeridade. Despautério. Vivemos em profunda perplexidade. Cidadãos amedrontados. Governos capitulados. Gregos e troianos se acovardam. O capital financeiro é inclemente. Tudo justifica tudo. E quando tudo justifica tudo, nada justifica nada. Não há teoria econômica que explique esse estado de coisas. As correlações são aleatórias. Nada do lado real da economia ocorre para justificar toda essa "turbulência". Uma crise de símbolos. Os modelos econômicos são modelos de dominação. Amparam retoricamente tudo que favorece o capital financeiro. Uma supremacia da linguagem. O mundo pertence às finanças. Mas a economia do século XXI é um frágil castelo de cartas. Um mito nada natural. Que só é o que é porque alguns escolheram que assim fosse. Escolhas humanas impostas por uns poucos beneficiários. Meritocracia sem mérito. Uma guerra contra a humanidade provocada deliberadamente pela desregulamentação financeira mundial. Construída com armas letais de efeito crônico e prolongado. Arquitetada nas mesas de operações dos eficientes soldados da especulação neoliberal. Os excluídos são os despojos dessa guerra. Restos humanos da globalização financeira. Mas apesar de alguns "vencedores", a humanidade inteira é derrotada. Há mais de 30 anos. E tudo isso por nada. Nem por "Hécuba". Nem por quase ninguém.