quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Era uma vez um poderoso rei

King William I, artista desconhecido
"Democracia não é, como querem os liberais, o regime da lei e da ordem. É o único regime político no qual os conflitos são considerados o princípio mesmo do seu funcionamento." (Marilena Chauí)

A democracia moderna é uma zona de conflito. Interesses em disputa, demandas nem sempre satisfeitas. Desejos frustados. Entretanto, a democracia é a maior conquista política da humanidade. Embora frequentemente soframos por conta dela. Como disse certa vez o conservador Winston Churchill, "a democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais". 

Mas a lógica do consumo nos transformou em cidadãos-consumidores. E nesse papel, a tolerância com o outro, com as diferenças, com demandas que não são as nossas, torna-se quase impossível. Temos sempre razão. Somos impacientes. Temos pressa. Agimos apenas com base no interesse próprio. O interesse geral não nos interessa. É um modo de exercer a cidadania como se estivéssemos nos relacionando com o SAC de uma empresa. Neste cenário, o chefe do executivo, seja prefeito, governador ou presidente, é o alvo preferido.

Superestimamos os poderes do Poder Executivo. Talvez por conta do nosso imaginário infantil, quando as histórias de reis e rainhas narravam lugares imaginários em que os soberanos detinham o poder de fazer tudo à revelia de todos. A felicidade geral do reino nos contos infantis era sempre determinada pelas ações benevolentes do rei. E a tristeza geral era provocada pelas ações malévolas do soberano. 

Não havia tripartição de poderes. A promiscuidade imobilista do legislativo. A frieza tecnicista do judiciário. Advogados do diabo. Juízes divinizados. Não havia forças de mercado. Lobistas. Imprensa. Globalização. Bancos de investimento, agências de rating, taxa de câmbio, bolsa de valores, grandes corporações. Não havia George Soros. Warren Buffet. Bill Gates. André Esteves. Eike Batista. Não havia FMI, OMC, BIRD, BID, SEC, CVM. Bancos centrais não existiam. Investidores não detinham poderes para quebrar um país. Moedas valiam o seu peso em metal precioso. Reinos não guerreavam por acesso a mercados e recursos naturais. Nas histórias infantis havia crueldade. Mas era uma crueldade artesanal. Local. Hoje a crueldade opera em escala industrial. Global. 

O mundo das fábulas era simples. Havia o bem e o mal. E o primeiro sempre vencia. Dormíamos seguros e felizes. E quando o tempo nos acordou já éramos adultos. Habitantes de um outro mundo. Um lugar não mais regido por reis e rainhas, mas por grandes corporações. Pelos interesses do capital financeiro-especulativo. Pelos barões das armas. Monarcas do petróleo. Senhores da guerra. Soberanos do tráfico. Imperadores das finanças. Patriarcas da mídia. Tiranos da indústria cultural. Magos da moeda virtual e eletrônica. Um mundo cada vez mais distante das histórias infantis. Mas nossa ingenuidade pueril continua a habitar nossos corações e mentes. Sempre à espera do rei.