terça-feira, 18 de agosto de 2015

Educação: uma questão de obsessão coletiva

Loja da grife Louis Vuitton na Champs-Élysées, Paris - França
“Eduquem-se cada vez mais, nunca parem de aprender. Eduquem os outros, eduquem a sociedade.” (Renato Janine Ribeiro)

O Brasil é o país com menor gasto por aluno nas escolas de ensino médio entre 32 nações com dados analisados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Muita gente publicou essa informação nas redes sociais. Pessoas esclarecidas, indignadas e preocupadas com a educação do país. Mas se fizermos um cálculo de quanto a sociedade brasileira gasta, por conta própria em educação, proporcionalmente a sua renda, esse número muito provavelmente não seria maior, em termos percentuais, do que quanto o Estado gasta em educação. Evidentemente que me refiro as classes mais favorecidas, que são formadoras de opinião e cuja renda não é integralmente gasta na subsistência. 

É senso comum que preferimos gastar nossos rendimentos com roupas de grife, aplicações de Botox, cirurgias plásticas, carros SUVs, viagens de compras, turismo predatório, celulares novos, sapatos caros, jóias, acessórios de luxo a investirmos em uma educação continuada. Um bolsa Louis Vuitton é muito mais cobiçada que uma bolsa de estudos de pós-graduação. Para os que podem podem pagar pela educação vale mais uma viagem de compras a Paris do que investir na própria educação e na de seus familiares. Não é necessário fazer pesquisas científicas para observar o comportamento do brasileiro médio em relação aos seus gastos em educação. E não me refiro apenas a investimento pecuniário. Refiro-me também ao tempo gasto com educação. Parece que nunca temos tempo para nos educar.

Em termos microeconômicos, essas escolhas individuais envolvendo tempo e dinheiro, que privilegiam gastos em bens de luxo ou em bens de consumo supérfluos, impactam negativamente o setor da educação. Ao preferirmos aplicar Botox, comprar um carro importado, um celular de última geração ou fazer uma viagem de turismo predatório em lugar de gastarmos nossos recursos e nosso tempo em aulas particulares, cursos, livros didáticos, literatura etc., contribuímos para a precarização do setor. A demanda por produtos e serviços educativos acaba por não ser alta o suficiente para atrair bons empreendimentos e recursos humanos para o setor. Há um custo de oportunidade evidente. O dinheiro não é elástico. Gastar em alguma coisa significa deixar de gastar em outra. Simples assim. E isso também é válido para o tempo. Quando decido assistir à novela da TV, deixo de usar esse tempo para estudar. O estudo, nesse caso, é o meu custo de oportunidade para assistir à novela. 

Um círculo vicioso se fecha. Há fuga de cérebros e de investimentos. Pessoas altamente qualificadas que poderiam se dedicar exclusivamente à educação preferem carreiras com maior retorno financeiro e prestígio social. O mesmo ocorre com o capital, que vai buscar alternativas com maior retorno sobre o investimento. Torna-se fundamental compreender que uma pátria educadora não se faz apenas com ações governamentais. É importante que haja uma interação entre o setor público e o privado, assim como um choque de demanda por bens e serviços educacionais, de modo a criar um círculo virtuoso no setor. Infelizmente o que ocorre no Brasil é o inverso. Com efeitos perversos na educação em todas as classes sociais. Se as classes mais favorecidas negligenciam sua própria educação, há um efeito em cascata que afeta a sociedade como um todo. 

Assim, grande parte da classe média (e superior) é praticamente analfabeta em ciências básicas, saúde pública, filosofia e matemática. Escrevemos mal e lemos muito pouco. Temos pouco contato com os clássicos da literatura e achamos normal uma certa ignorância esclarecida. E nada fazemos a respeito. Quando uma celebridade concede uma entrevista, o que gostamos de saber? O que está lendo, o que pensa do país, sua visão de mundo? Não. Queremos saber qual a dieta da moda, se ela colocou silicone nos seios, se fez lipoaspiração, que marca de roupa está usando, se está namorando etc. Somos movidos muito mais pelo consumismo do que pelo desejo de educação. Há exceções, mas na média, somos assim.

Então, como sociedade, refletimos exatamente o comportamento que tanto criticamos nos governantes. Investimos muito pouco em educação. Não fazemos a nossa parte. E, no entanto, nos indignamos e nos envergonhamos com os indicadores da educação no país. Mas não é um sentimento legítimo. Agimos de maneira hipócrita, pois nosso discurso não corresponde às nossas ações. O fato é que não nos interessamos por educação e cultura pelo que elas valem por si. Quando muito, investimos um pouco em algum tipo de treinamento apenas para aumentar nossa empregabilidade. Esquecemos a lição de Paulo Freire, que dizia: "onde quer que haja mulheres e homens, há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender".

No tocante aos dados da OCDE, para avaliar corretamente o investimento do país em educação pública é preciso também conhecer a série histórica e o gasto percentual em relação ao PIB. O investimento público brasileiro em educação cresceu significativamente na última década, passando de 3,5% para 5,6% do PIB. Dentro dos gastos públicos totais do Brasil, a educação até que recebe um percentual razoável: em 2011, 19% de todo o gasto público do Brasil foi destinado à educação. A média da OCDE é de 13%. Segundo a OCDE, o Brasil já destina mais do seu PIB para educação do que os países ricos, mas o gasto por aluno ainda é pequeno. Nosso PIB corresponde a de um país de renda média, portanto, em termos absolutos, o investimento em educação ainda é baixo. Mas se compararmos com os últimos 15 anos, a evolução é positiva. Os gastos em educação em relação ao total dos gastos públicos cresceu de 10,5%, em 2000, para 17,4%, em 2008

Não está bom. Pode ser muito melhor. Precisa ser melhor, mas já esteve muito pior. Nós também, como sociedade civil, integrantes de uma parcela da população mais escolarizada e, portanto, mais privilegiada, podemos ser melhores. Muito melhores. Talvez nunca estivemos piores. Educação no Brasil não deveria ser apenas questão de vontade política e sim de obsessão coletiva. Educação no Brasil deveria ser o nosso bem de maior luxo.

Fonte: site da OCDE http://www.oecd.org/brazil/48670822.pdf