sábado, 15 de agosto de 2015

Decifra-me ou devoro-te

Perfomance de Ulysses Ferraz - Foto Isabela Kassow
"Quando a economia começou a servir interesses do capital, teve que se libertar do homem, isto é, da história." (Milton Santos)

No século XXI, o consumo é tanto a doença como o remédio. Doença porque causa devastação ambiental, rupturas sociais, endividamento e individualismo extremo. Remédio porque sem consumo as economias entram em colapso. 

Sem consumo, há recessão e desemprego. Não há crescimento econômico sem consumo. Sem crescimento econômico, não há emprego. Não há consumo sem emprego. Todas as crises no fim das contas são crises de demanda. Da falta dela. Recessão. Ou do excesso. Bolha. O equilíbrio perfeito só acontece nos livros-texto de microeconomia.

Também não há redução de emissões de carbono com crescimento. Ao menos não com a matriz energética atual. Não com as empresas e governantes tomando decisões de curto prazo. Business as usual. As primeiras, em busca de ganhar mercados, reduzir custos, inflar a remuneração dos altos executivos e maximizar o retorno de acionistas e proprietários. Os últimos, em busca de incentivar a atividade econômica para gerar empregos, aumentar receitas tributárias e garantir votos. Paradoxo.

Mas sem crescimento, países pobres continuam pobres, países emergentes submergem e países em desenvolvimento atrofiam. O círculo vicioso se fecha. Desemprego, precarização, colapso ambiental, pobreza extrema, concentração de riqueza e renda. Impasse.

E o consumo, vendido como panaceia, tem sido estimulado e aplicado em doses cada vez mais cavalares. A superdosagem salta aos olhos. Vivemos num mundo fora de escala, em que a doença e remédio se confundem. Mas cura ainda não há. Tampouco há médicos. Só há economistas. E suas fórmulas obsoletas. Por enquanto, estamos todos desenganados.