quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Banqueiros de investimentos: os irresistíveis sedutores do capitalismo financeiro

Christopher Lee e Melissa Stribling - Drácula (1958) 
"Em 2002, pensava-se que as instituições financeiras ocidentais eram fenômenos na gestão do risco e na distribuição de capitais; hoje, vemos que são fenômenos na manipulação do mercado e em outras práticas enganadoras." (Joseph Stiglitz)

Os bancos de investimento são os grandes protagonistas da financeirização econômica globalizante. Goldman Sachs, Morgan Stanley, Soros Fund Management, BTG Pactual, Gávea Investimentos são algumas das principais estrelas mundiais de um roteiro muito bem estruturado, cuja narrativa tem sido incrivelmente eficaz para entorpecer e seduzir países, governos, empresas, imprensas, universidades, cidadãos. Todos nós. São bancos invisíveis, intangíveis, não aparecem nas ruas, não fazem publicidade. São silenciosos caçadores de lucros de curto prazo. Lidam apenas com grandes investidores e fundos institucionais de grande porte. Mas afetam, sobretudo, a vida de pessoas comuns, trabalhadores, microempresários, mutuários, pequenos poupadores e investidores. Negativamente. Com efeitos de longo prazo.

Seus fins: acumulação financeira exponencial. Seus meios: derivativos e papéis de dívida securitizada. Instrumentos obscuros e misteriosos. Swaps, CDOS, ABS, CDS, RMBS. Ao mesclar fins e meios, promovem cotidianamente a drenagem do capital produtivo para o setor financeiro. Só jogam para ganhar. Os sistemas jurídicos do mundo os protegem. A tributação é favorável. O planejamento fiscal é facilitado. Governos estremecem à sombra dos grandes banqueiros de investimentos. Estados se curvam diante dos poderes praticamente ilimitados do grande capital financeiro. Em face a perdas monumentais, prestam-lhes socorro imediato. No fim do dia, cidadãos incautos e obedientes subsidiam, com salários, impostos e perdas pessoais, as extravagâncias arriscadas desses intrépidos magnatas das finanças. Todos parecem trabalhar em perfeita harmonia para garantir a opulência e prosperidade dos novos donos do mundo. Resultado social: desemprego, empobrecimento, alienação e concentração da riqueza.

E como funciona? Não muito tempo atrás, quando alguém fazia um empréstimo bancário, a operação se resumia entre o tomador de empréstimo e o banco. Ponto final. Agora, os bancos de investimentos compram dívidas, agrupam e combinam os diversos perfis de risco dessas dívidas, e as transformam em um título de dívida maior, chamado de título "composto". São títulos denominados securitizados. Negociados agressivamente e com altas margens de lucro. Como há diversos perfis que compõem o risco de cada produto, esses títulos funcionam seguindo a mesma lógica de uma operação de seguro. O risco maior de um devedor compensa o risco menor de outro. Tudo garantido pelas boas notas das agências de risco. Além desses papéis agrupados, existem os derivativos. Segundo Ha-Joon Chang, "os derivativos são assim chamados porque não têm nenhum valor intrínseco próprio e 'derivam' seus valores de coisas ou acontecimentos externos. São apostas em como outras coisas vão se desenrolar ao longo do tempo". Pode ser uma luta de boxe em Las Vegas ou o preço futuro do barril de petróleo. Com a desregulamentação dos mercados financeiros, em escala global, o nível de abstração e os limites dessas operações ultrapassam os céus.


Trata-se de uma atividade quase esotérica, realizada por agentes transmutadores, como os lendários alquimistas. Mas ao contrário dos antigos magos, os modernos banqueiros de investimentos transformam "ouro" em ativos tóxicos. Tudo que tocam vira miséria alheia. Ilusionistas que provocam crises sistêmicas reais. Criadores de tsunamis financeiros. Destroem as riquezas coletivas e as transformam em lucro individual. Quando lucram, lucram sós. Retêm todos os ganhos. Individualmente. Quando perdem, não perdem. Socializam as perdas. Transferem riscos. Distribuem prejuízos. Coletivamente. Como são grandes demais para quebrar, quando quebram, os governos se encarregam de socorrê-los. Caso contrário, dizem os especialistas, os prejuízos sociais seriam ainda maiores. De tempos em tempos um bode é sacrificado, como o Lehman Brothers. Mas tão somente para que o espetáculo continue. Por estarem livres de riscos e de regulamentações, esses bancos tornam-se cada vez mais ricos. Imunizados. Intactos. Inatingíveis. Misteriosos. Sofisticados. Sedutores. Afinal, quem pode resistir a tanto poder de sedução? Ao que tudo indica, quase todos parecem se deixar seduzir. Ainda que às custas do próprio sangue.