segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A violência de uma manifestação sem paixão

Foto Domingos Peixoto
Agência O Globo
"Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. Cada homem é testemunha do crime de todos os outros, eis a minha fé e a minha esperança." (Albert Camus)

Há momentos em que a melhor maneira de se compreender um fato social é o trabalho de campo. Mesmo que não tenha rigor científico ou uma metodologia sociológica, a observação atenta a um determinado acontecimento é sempre um meio interessante para se tirar algumas conclusões. A manifestação de ontem, 16 de agosto, ao menos onde tive a oportunidade de observar pessoalmente, em Copacabana, embora expressasse, em seu conteúdo, sentimentos de ódio, indignação e revolta diante dos governos da Presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, em seus corpos, os manifestantes da orla carioca não demonstravam nenhum tipo de pulsação ou fisicalidade.

As pessoas, de um modo geral, expressavam suas demandas de maneira estilizada. Jamais com visceralidade. Uma manifestação sem paixão. Sem fogo. Sem sangue. Um leão saciado comporta-se diferentemente de um leão faminto ou ferido. Da mesma forma, nós, enquanto animais, quando nossas necessidades vitais e materiais estão satisfeitas, nos comportamos de maneira tranquila, quase indolente. Foi, portanto, sem dúvida, como descreveram orgulhosamente os repórteres da rede Globo, uma manifestação pacífica e ordeira. Não havia ódio, revolta ou indignação nos corpos. Apenas nos slogans. As "emoções" estavam presentes somente nas faixas, nos dizeres, nas camisetas, nos bonés. Até mesmo os gritos, embora estridentes, não passavam de ruídos vazios, sem tônus afetivo.

A sociabilidade dos encontros podia ser observada nos beijinhos e abraços dados de acordo com os protocolos de etiqueta das salas de visita típicas de classe média. Jamais houve tensão em momento algum. Os comerciantes locais fizeram ótimos negócios. Venderam camisetas genéricas da CBF, máscaras, apitos, enfim, todo o aparato de consumo para o manifestante padrão. Os cafés e restaurantes da Avenida Atlântica e adjacências faziam fila. Muita fartura nos pratos, nos copos, nos corpos. Um clima festivo e relaxado, como se aqueles grupos houvessem acabado de fazer uma série de jogos recreativos ao estilo Clube Med, e agora estivessem tratando de repor as energias mediante a degustação de rodízios etílicos e gastronômicos, numa espécie de sistema all inclusive.

Uma combinação de turismo local com consumismo global, travestidos de manifestação pretensamente engajada, em verde e, principalmente, amarelo, a cor predominante estampada nas camisetas da seleção brasileira e nos cabelos tingidos de louro de nove em cada dez mulheres que desfilavam hiper-maquiadas no calçadão da impassível praia de Copacabana. Produção de um figurino escolhido à risca, complementado por tênis e acessórios que brilhavam de tão novos. Fotos em grupo, selfies, muita descontração e alegria regadas a cerveja e quitutes dos quiosques abarrotados. Ruas engarrafadas.

Mas apesar de toda essa apatia emocional, o resultado não foi menos violento do que as manifestações mais sangrentas da história. Há algo de perverso e sórdido nos rostos sorridentes e pacíficos de uma parcela da sociedade historicamente estruturada a partir de benefícios de classe e favorecimentos hereditários, que só é capaz de enxergar a si mesma. Há uma profunda violência simbólica nesse ato sem paixão, protagonizado por aqueles que só se interessam politicamente pelo país quando veem seus privilégios históricos ameaçados.

No balanço de perdas e ganhos, um único saldo positivo: no fim da jornada, a contabilidade para os vendedores, guardadores de carros e comerciantes da região foi um pouco mais lucrativa que de costume. Maior demanda, melhor preço, margem de lucro maior. Um pouco de estímulo à economia popular e alguma redistribuição de renda, principalmente para aqueles trabalhadores e prestadores de serviços, que, ao contrário dos manifestantes recreativos ali presentes, labutam todos os domingos e feriados, de sol a sol, ainda que sejam seres invisíveis para grande parte das classes mais abastadas do Brasil.