sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A revolução do coração

Leonardo Da Vinci - Anatomia do coração
"Quando o vosso coração se dilata, amplo e pleno, tal como um rio, bênção e perigo para os que vivem às suas margens: ali está a origem da vossa virtude." (Friedrich Nietzsche)

Em um mundo regido preponderantemente pelas forças de mercado, já nascemos com os nossos objetivos delimitados. Os fins já estão determinados, antes mesmo de nascermos. Neste mundo que criamos, gerações após gerações, só nos resta competir para vencer o jogo dos mercados. Toda nossa energia é canalizada para os meios, para os processos, para os mecanismos, para as técnicas de obtenção de resultados previamente estabelecidos. 

Mundo da eficiência, não importa qual seja o fim. Vencer na vida, chegar lá, ter sucesso é, em última instância, sinônimo de sermos consumidores de alto poder aquisitivo. Liberdade para consumir. Poder de compra é o grande troféu. Essa escolha antecipada e socialmente determinada nos faz competir sem trégua por um objetivo que não escolhemos, mas que internalizamos, aceitamos e passamos a acreditar como sendo parte da natureza humana. 

A competição se torna expressão humana naturalizada, "biologicamente" determinada, parte da "essência" mesma de sermos humanos. Acreditamos e aceitamos essa naturalização de nossas crenças mais essenciais. E nos lançamos à competição mais violenta. A competição como modo de vida. Cotidiana, banalizada, metódica. Daí tanto ódio, tanta violência, porque competir é sempre deixar o outro para trás. Mas nem sempre isso possível. Nesta lógica, muitas vezes somos vencidos. 

Por isso odiamos, por isso somos violentos, por isso vivemos na intolerância, na indignação. Com o outro, sempre o outro, nosso competidor direto e muitas vezes indeterminado, impessoal. Talvez se nós buscássemos nos apropriar de nossos objetivos, de nossos fins, deslocando a energia imensa hoje apenas aplicada aos meios, e vivêssemos norteados pelo que nosso coração realmente deseja, pelo que realmente nos toca, nos move e comove, talvez fizéssemos a verdadeira revolução. 

Talvez construíssemos um outro mundo. Mundo em que a revolução seja usar as forças coletivas e institucionais (as forças de mercado inclusive) como meios, como instrumentos para realizar os fins de um mundo mais justo, mais equilibrado, mais livre, mais diversificado, mais igualitário, mais humano. 
Uma verdadeira revolução do coração, em que a razão, ao contrário de inexistir e se opor ao coração, seria sua fiel aliada e utilizada como instrumento de iluminação para vivermos a vida que realmente vale a pena ser vivida. A vida cuja finalidade é descoberta a cada dia. 

Vida que nos desafia, surpreende e encanta. Vida como fim de si mesma. Que basta ser vivida por si. A vida que não é instrumento e nem instrumentaliza pessoas. A vida que não é meio para enriquecer, para ter mais poder, para ter mais isso ou aquilo. A vida pautada nas atividades que valham por elas mesmas. A vida que se basta. A vida que vive e deixa viver. Viver para ser.