quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A realidade nua e crua de um modelo econômico ortodoxo

O Tetrabiblos de Ptolomeu
“Mais cedo ou mais tarde são as idéias, não os interesses investidos, que são perigosos para o bem ou para o mal.” (John Maynard Keynes)

O pensamento econômico dominante se assemelha muito à astronomia ptolomaica. E ao mundo das formas puras de Platão. Prefere a beleza e a elegância dos modelos aos fatos observáveis. Assim, gerações e mais gerações de economistas e não economistas assimilam e propagam esses modelos matematicamente elegantes. Nas universidades, nos governos, nas empresas, nos meios de comunicação, jornais, livros e revistas.

Contrariar o cânone econômico vigente equivale a uma heresia digna dos tempos de inquisição. Um economista heterodoxo não ganha prêmio Nobel, tem mais dificuldades na obtenção de recursos para pesquisas acadêmicas, não tem espaço na mídia especializada, dificilmente é convidado para seminários e pode até mesmo ser vaiado em lugares públicos. Viver na heterodoxia econômica equivale a viver nas trevas.

Mas ao contrário da física pré-científica, cujos efeitos práticos eram inofensivos, os impactos reais dos modelos econômicos ortodoxos não são tão inocentes quanto teorizar sobre estrelas fixas no céu ou planetas que giram harmonicamente em volta da Terra. As teorias econômicas ortodoxas, quando saem dos livros-texto de economia, justificam e estimulam a adoção de políticas públicas perversas. Assim, uma ciência pretensamente descritiva e neutra torna-se normativa e dogmática. E a despeito dos fatos, vira verdade. 

Por trás de uma suposta neutralidade científica, escondem-se os interesses ideológicos de setores ligados ao capital financeiro e à comunidade empresarial. Os efeitos são reais. Os impactos mensuráveis. Os resultados observáveis. Quando a teoria descrita no modelo é aplicada à realidade, a exatidão de um modelo matemático se transmuta em horror. A elegância se materializa em miséria. A precisão se transforma em desequilíbrio. A harmonia vira conflito. E a beleza se converte em dor.