quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A brutal equação da concentração da renda

"Sentimos instintivamente que alguma coisa vai mal nas sociedades com grandes disparidades de rendimentos." (Richard Wilkinson)

Se considerarmos o PIB per capita no Brasil e o compararmos com os rendimentos anuais dos mais afluentes do país, aqueles classificados como super-ricos, é possível chegar, de maneira simplificada, a seguinte conclusão: para se igualar aos rendimentos relativos a 1 (um) ano de trabalho das parcelas mais ricas da população, compostas por altos executivos, grandes empresários, banqueiros, celebridades, rentistas e outras modalidades de endinheirados, um trabalhador médio teria que trabalhar cerca de 500 (quinhentos) anos. A diferença, em termos monetários, é de aproximadamente 500 (quinhentas) unidades. Transformando-se unidades monetárias em anos, chega-se ao seguinte resultado: para cada 500 (quinhentos) anos trabalhados, um trabalhador médio atinge a renda equivalente a um ano de trabalho relativo a alguém do topo da pirâmide. Tudo isso em termos aproximados e simplificados.

Desta forma, supondo que uma vida útil de trabalho não exceda a 50 (cinquenta anos), tudo o mais constante, seriam necessárias, no mínimo, 10 (dez) vidas inteiras de um trabalhador médio para que obtivesse o equivalente, em renda, a um único ano produtivo de um membro da elite brasileira. Nos EUA, a proporção é quase idêntica. Um alto executivo chega a ganhar o equivalente a 500 (quinhentas) vezes o salário de um trabalhador médio. Convertendo salários em anos, e os anos em vidas, o resultado seria cerca do tempo médio de 10 (dez) vidas humanas. Com a expectativa de vida atual, seria necessário quase o tempo de um milênio inteiro para que as rendas se igualassem. Isso se um ser humano pudesse viver várias vidas.

Ainda assim, se abstrairmos o fato de que cada um de nós vive uma única vida e, portanto, transformarmos esse quase milênio de tempo decorrido em 500 (quinhentos) anos de energia de trabalho humano gasto para sobrevivência, podemos concluir que a quantidade de valor que uma pessoa das classes mais abastadas se apropria, em termos de riqueza, durante um ano, equivale a 5 (cinco) séculos de atividade de um trabalhador médio, expressos em energia humana. Ou, como diria Marx, traduzidos em "força de trabalho humano em sentido fisiológico". Em resumo, a energia de trabalho humano médio dispendida em cinco séculos equivaleria a, grosso modo, apenas um único ano de salário de qualquer uma de nossas celebridades mais queridas.

Caso utilizássemos o mesmo raciocínio para fazer as contas aproximadas de quantos milênios um trabalhador médio teria que viver para se igualar, em termos de rendimentos, por exemplo, toda a vida produtiva de um presidente de uma grande corporação qualquer, os números seriam incalculáveis. Estarrecedores. Algo em torno de 15 (quinze) milênios. Esses são cálculos aproximados e, obviamente, extremos. Mas se considerarmos uma diferença de renda menos acentuada, digamos 50 (cinquenta) no lugar de 500 (quinhentas) vezes, ainda assim o resultado seria brutal: 1500 (mil e quinhentos) anos de vida produtiva.

Um desequilíbrio dessa grandeza não pode ser tratado com tanta naturalidade em nossa sociedade. Demonstra o estado de imensa patologia social ao qual estamos imersos. Não há como se tomar ciência de tamanha desigualdade, sem que nossas consciências sejam afetadas. Um mundo sustentado por uma equação tão brutal não pode ser viável. E para se transformar um mundo assim tão desigual, não há mais um dia sequer a se perder. Os esforços devem ser diários. Cotidianos. Os milênios não voltam atrás.