segunda-feira, 20 de julho de 2015

Respostas adultas para perguntas infantis

Desenho feito por mim, em 1971,
aos seis anos de idade.
"O mundo das fábulas era simples. Havia o bem e o mal. E o primeiro sempre vencia. Dormíamos seguros e felizes. E quando o tempo nos acordou, já éramos adultos. Habitantes de um outro mundo. Um lugar não mais regido por reis e rainhas, mas por grandes corporações." (Era uma vez um poderoso rei - U.F.)

Quando era criança pensava que o presidente da República detinha poderes ilimitados. Imaginava que um presidente era igual a um rei das histórias infantis. Não me conformava como poderia haver crianças, da minha idade, que viviam nas ruas ou em lugares miseráveis, abandonadas e desprotegidas. Quando perguntava aos adultos por que isso era assim, tão injusto, todos respondiam de forma evasiva. Minha mãe culpava os militares. Alguns diziam que aquelas eram crianças preguiçosas, que não queriam estudar e melhorar de vida, por isso tinham que viver na pobreza. Pessoas nas ruas, nos restaurantes, nas feiras, taxistas, porteiros, bancários, balconistas, adorava ouvir as conversas dos adultos.

Então pensava: se essas crianças, que vivem nas ruas, trabalham para sobreviver, carregando peso todos os dias, vendendo todo tipo de coisa, na chuva e no sol, descalças, pisando o asfalto fervendo, se elas são preguiçosas, imagina eu que não faço nada o dia inteiro e ainda tenho preguiça de fazer o dever de casa, de ajudar nos trabalhos domésticos da casa e ainda passo a semana esperando o final de semana para não ter que ir para o colégio? Era muito mais preguiçoso que qualquer outra criança da minha idade, tinha casa para morar, roupas, sapatos, escola e minha mãe cuidava muito bem de mim. Só não tinha preguiça para jogar futebol. As repostas dos adultos nunca me convenciam. Se preguiça causasse pobreza eu seria a criança mais miserável do mundo.

Perguntava a mim mesmo, mas por que o presidente não resolve isso? Não poderia imprimir dinheiro e distribuir para todos os pobres? Um presidente não manda em tudo? Não teria, portanto, o poder de criar leis que pudessem garantir um trabalho decente para os pais daquelas crianças? Como poderiam ser tão cruéis? Interessante ver que muitos adultos ainda pensam mais ou menos assim: pobre é pobre porque merece sê-lo e presidentes são seres onipotentes que podem resolver tudo num passe de mágica. Como os reis das histórias infantis. Essas questões jamais saíram da minha cabeça. Talvez esteja aí a origem do meu interesse por economia. E também da minha insatisfação com as respostas que a ciência econômica oferece. Uma ciência triste, representada por adultos sisudos, mais conhecidos pelo pomposo e respeitável nome de economistas.