sábado, 4 de julho de 2015

O cotidiano do racismo à brasileira

Carolina Maria de Jesus e Ruth de Souza na Favela do Canindé 
"O mito da democracia racial ainda impede as pessoas de reconhecê-lo, seja no cotidiano de suas vidas, seja na ficção produzida pela mídia." (Solange M. de Couceiro de Lima)

A Rede Globo sempre retratou a personagem negra em suas novelas de forma estereotipada, subalterna, inferiorizada e submissa. Há um expressivo número de teses de doutorado a esse respeito na ECA/USP. De certa forma, a emissora acostumou o seu público a assistir, por meio de suas inúmeras teledramaturgias, a um mundo dominado e regido sempre por brancos. 


Como afirma a antropóloga Solange Martins de Couceiro de Lima, professora de Antropologia da ECA/USP: "Sabemos que a formação da identidade é um processo de construção no qual, em sociedades complexas, atuam múltiplos agentes e entre eles a comunicação tem uma presença importante. A existência de uma identidade negra deformada e estereotipada presente em diversos produtos da comunicação social é responsável pela construção de novas identidades que refletem aquela. Apesar de o movimento negro, dos estudiosos negros e brancos demonstrarem preocupação com essa questão, a sociedade e a academia, de um modo geral, parecem ter reservado, até agora, pouca atenção a ela. Mudar a sociedade, assumir o racismo, discuti-lo para enfim exorcizá-lo, seria uma forma de mudar a imagem que a comunicação transmite dos afro-descendentes. Mas também mudar a mídia, introduzir imagens mais diversificadas e reais do negro e sua vida, realizar programas que debatam e divulguem discussões sobre a questão racial e, sobretudo, tratar o afro-descendente com dignidade e respeito poderia, também, ser um caminho para mudar essa sociedade".

Assim, aqueles que fizeram comentários racistas na página eletrônica do Jornal Nacional, num certo sentido, reproduzem, porém de uma maneira mais direta, o que a Globo, de modo eufemístico e simbólico, faz diariamente há cinquenta anos em sua programação. Esse fato não diminui nem justifica o crime de racismo cometido pelos internautas em face da jornalista Maria Júlia Coutinho. Não se trata de excluir responsabilidades. Apenas visa ampliar as perspectivas do problema e provocar uma reflexão mais crítica e aprofundada sobre os impactos da emissora na sociedade brasileira. E para além dela, já este retrato ultrapassa as telenovelas da Rede Globo e está presente no cinema, no teatro e na publicidade em todas as suas mídias. Vivemos numa sociedade em que há ainda uma forte presença de racismo e tudo o que contribui para a prática desse crime, implícita ou explicitamente, deve ser combatido e ser objeto de reflexão, preocupação, estudo e aprofundamentos. Considerar esse fato como algo isolado, como algo apenas relativo a um pequeno grupo é ignorar a extensão e profundidade do problema na sociedade brasileira. Não há mais espaço para se contemporizar com isso. 

A Rede Globo é uma grande corporação, dispõe de muitos talentos, pessoas qualificadas, com reconhecida competência em seus campos de atuação e reúne grande parte dos melhores recursos humanos do Brasil na área de cultura. Não pode se dar ao luxo de se eximir de suas responsabilidades na questão do racismo. No Brasil, 98% dos lares recebem o sinal da Globo. Por outro lado, apenas 2% dos municípios possuem sala de cinema. A Rede Globo está presente nos lares dos brasileiros diariamente. Isso implica responsabilidades. É hora de enfrentar o fato. Sem meias palavras. Os meios de comunicação são parte da cultura de um país. Não apenas refletem essa cultura mas ajudam a construí-la. A Globo não é a causadora direta do crime de racismo ao qual sua jornalista foi vítima. Mas como formadora de opinião e difusora de hábitos culturais, é parte do problema. Possui todos meios materiais e simbólicos para ser parte da solução. Basta assumir suas responsabilidades sociais e liderar uma revolução cultural no país. Todos teriam a ganhar. A emissora e a sociedade brasileira.