domingo, 26 de julho de 2015

O IPCA e os diversos gêneros teatrais

Imagem do Globe Theater - Londres
"O desenvolvimento sustentável está cada vez mais longe. A descoberta de que a meta de inflação é insustentável, cada vez mais perto." (João Sayad, professor da FEA/USP)

Uma das razões para que a inflação nos EUA seja historicamente mais baixa que a brasileira, de acordo com o economista João Sayad, é que o Fed, o banco central americano, exclui do indicador oficial de inflação os preços de energia, hortaliças e de vários outros produtos, cuja volatilidade de preços é alta. Em outras palavras, o indicador de inflação do Fed expurga do índice tudo aquilo que faz com que a inflação brasileira, calculada pelo IPCA, esteja fora da meta em 2015. Se utilizássemos critérios norte-americanos, nossa inflação estaria controlada e nossos jornalistas econômicos não teriam nada para escrever sobre esse assunto. O que fariam as redações e as consultorias econômicas? Drama. 

Enfim, mais um exemplo de que economia não é um fenômeno da natureza. É construção social. Os critérios utilizados podem fazer com que realidades semelhantes sejam apresentadas de maneiras diferentes. Em economia, tudo é narrativa. Discurso. Mas aqui no Brasil, economia é tratada como ciência exata. Ou religião, dependendo de como se defende o dogma. Com gráficos ou com liturgias. Mexer no índice de inflação e, consequentemente, mudar a política de juros altos, que tem sido justificada como instrumento de combate à inflação, seria quase um sacrilégio. Uma realidade que economistas e jornalistas especializados jamais suportariam admitir em nosso país. Afinal, como ficariam os altos rendimentos dos fundos de renda fixa caso as taxas de juros no Brasil fossem compatíveis com as taxas praticadas no resto do mundo? Tragédia.

Não fossem pelas altas taxas de juros, como os grandes bancos de investimentos poderiam cobrar altas taxas de administração de seus fundos, elaborados de forma personalizada para cada cliente, com o suporte de cálculos matemáticos complexos, cálculos estatísticos, probabilísticos e atuariais elaborados por engenheiros com pós-graduação no MIT e em Harvard, se esses fundos de “primeira linha” perdessem em rentabilidade da boa e velha caderneta de poupança? Tragicomédia.

Isso aconteceu em 2013, quando a Selic caiu para 7,25% ao ano. Imagine a humilhação, para um gestor de fundo diferenciado, com seu escritório localizado na área mais nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, com diplomas de pós-doutorado das universidades mais prestigiadas do mundo espalhados pela parede, ter que explicar para seu cliente, recém-desembarcado de seu helicóptero, que a melhor opção de investimento é a simplória caderneta de poupança. Como bater as metas de venda? Comédia.

Não é por acaso que os defensores do modelo neoliberal afirmam que os bancos centrais devem ser independentes. O mercado não pode aceitar interferências. Bancos centrais devem ser livres para voar. E garantir que as aplicações financeiras dos bem nascidos decolem junto com seus helicópteros. Farsa.