quarta-feira, 29 de julho de 2015

Nove décadas de liberdade de manipulação

Edição de O Globo em
29 de julho de 2015
"Será que a liberdade de imprensa é apenas a liberdade das empresas privadas fazerem o que lhes dá na gana? Ou a liberdade de imprensa também teria de compreender o que diz a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos, ou seja: o direito de as pessoas receberem informação de muitas fontes, e de terem a oportunidade de se juntarem, de gerar e produzir informação a partir de muitas fontes?" (Noam Chomsky)

Se O Globo preza tanto as avaliações das agências de risco, por que o jornal não noticiou o recente rebaixamento da perspectiva de nota das organizações Globo, por parte da Standard & Poor's (S&P), enquanto a perspectiva de nota da Petrobras foi mantida? Seria o rebaixamento causado por uma suposta má gestão das organizações Globo? Ou apenas a Petrobras pode ser acusada de má gestão?

Interessante porque a avaliação das agências de risco tem sido o assunto favorito do caderno econômico deste jornal há vários meses. Mas quando não lhes convém, certas informações são sorrateiramente sonegadas aos leitores. Simplesmente varridas para debaixo do tapete.

Ainda tiveram a desinibição de publicar, com destaque, em sua capa comemorativa de 90 anos, a informação de que o Brasil está na iminência de ter sua nota de risco rebaixada. No jornal O Globo, a torcida para o rebaixamento do país e da sua principal empresa, a Petrobras, é imensa. Quase uma torcida organizada. Só faltam faixas, bandeiras e batucadas.

De quebra, na capa da edição comemorativa, ainda há uma foto da presidente Dilma Roussef, em um momento cuidadosamente escolhido para ridicularizá-la. Um caso explícito de manipulação fotojornalística. Nunca vemos, neste jornal, uma foto desse tipo quando se trata de políticos da oposição, como Aécio Neves, José Serra ou Fernando Henrique Cardoso. São todos retratados como verdadeiros heróis homéricos.

No portal eletrônico deste jornal, publicaram também um breve texto em que se intitulam defensores da liberdade de expressão. De fato, há muita liberdade de expressão em O Globo. Liberdade de se expressar em causa própria, há nove décadas, sem nenhum compromisso com a realidade dos fatos. Na versão impressa, a edição de hoje também reproduz a estética dos primeiros anos do jornal. A estética mudou, mas a "ética" continua a mesma.

Ao longo da história, o jornal O Globo sempre buscou atender a seus interesses mais mesquinhos em detrimento da qualidade das notícias publicadas. Um exemplo eloquente, para não esquecermos jamais: em 2 de abril de 1964, um dia após o golpe militar, este jornal, que se diz paladino da liberdade de expressão, nos brindou com a seguinte pérola jornalística: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". A frase fala por si.