quinta-feira, 9 de julho de 2015

Mercado de ações: um perigoso negócio da China

Foto Isabela Kassow
"Gradualmente, o investimento deixou de ser alocado na produção e passou a buscar maiores rendimentos nos ativos financeiros. A nova organização do sistema intensificou os fluxos de capital e permitiu que os excedentes fossem absorvidos por mercados fictícios." (David Harvey)

A queda da bolsa na China decorre da eterna ilusão de se desejar criar dinheiro a partir do nada. O mercado de capitais, em si, não é bom nem mau. Nem herói, nem vilão. Em tese, deveria ser neutro. Pode funcionar como uma ótima alternativa para que empresas financiem suas atividades, com recursos de terceiros, a um custo mais atraente do que no setor bancário. A emissão primária de ações, por parte das empresas de capital aberto, pode ser uma alternativa menos onerosa do que a contratação de empréstimos e financiamentos via bancos.

bolsa de valores, que é denominada mercado secundário, funciona para dar liquidez aos papéis emitidos pelas empresas. Se não houvesse bolsa de valores e, portanto, a possibilidade de negociar as ações adquiridas inicialmente no mercado primário, não faria sentido para ninguém investir em ações. A empresa emissora das ações só recebe dinheiro em caixa, correspondente à emissão de ações, no mercado primário, ou seja, quando essas ações são emitidas originariamente. Em troca de ações emitidas, a empresa recebe dinheiro de investidores que podem receber dividendos proporcionais ao número de ações adquiridas e/ou obter ganhos de capital ao vender essas ações futuramente na bolsa de valores.

Os compradores dessas ações, desta forma, financiam as atividades das empresas, uma vez que os valores negociados na compra das ações entram no caixa da empresa. De posse das ações, o investidor as mantém em sua carteira de investimentos até que decida vendê-las. Isso pode ocorrer em curto, médio ou longo prazo. Se o investidor vender a ação por um valor maior que a comprou, obtém lucro. Esse lucro pode ser vantajoso ou não. Há perdas até quando se vende uma ação por um valor superior ao da compra.

Caso a taxa de retorno seja inferior ao mercado de renda fixa (juros), ou a outras alternativas de investimento, o negócio não foi bom para o investidor. Se a taxa de retorno sobre o investimento for igual ou superior a média dos investimentos alternativos disponíveis no mercado, o investidor obteve sucesso. A empresa que emitiu as ações nada recebe com isso. Quando ações são negociadas na bolsa de valores, o caixa das empresas não é afetado. Os recursos fluem do bolso de um investidor para o bolso de outro.

Quando lemos na imprensa que a Petrobras ou qualquer outra empresa de capital aberto perdeu valor de mercado em razão da queda de suas ações, trata-se apenas de uma queda de valor simbólico. A empresa e seu caixa não foram afetados. Só há impacto em termos de confiança. Quando uma ação cai, geralmente, mas não necessariamente, é porque a empresa não está indo bem em suas operações. É circular. As atividades das empresas impactam os resultados de suas ações na bolsa que, por sua vez, impactam os resultados operacionais da empresa. Mas o mercado não é um espelho fiel. Como apontou Joseph Stiglitz, os mercados não são exatamente eficientes. Há informações assimétricas. Distorções.

Ainda assim, o mercado de ações impacta em algum grau a economia real. E vice-versa. Embora essa queda não reflita diretamente no caixa da empresa, isso faz com que seu custo de captação aumente. Seja em nova emissão de ações, seja no mercado bancário, os fornecedores de recursos vão exigir condições mais vantajosas para serem compensados do risco. Na prática, os investidores vão pagar menos por novas ações emitidas, receber dividendos mais vantajosos ou os emprestadores vão exigir juros mais elevados. A lógica é simples: maior o risco, maior o retorno exigido.

Portanto, o mercado de capitais pode ser um instrumento saudável numa economia de mercado. Funciona maravilhosamente nos livros-texto de administração financeira. Mas no mundo real, a tentação por ganhos fáceis e rápidos é sempre muito grande. O que poderia ser uma eficiente fonte de captação de recursos para empresas torna-se uma arena para especuladores profissionais que lucram com as oscilações e volatilidade do mercado. Ao atuarem no mercado de forma agressiva, esses especuladores manipulam preços, distorcem valores e causam enormes prejuízos à economia popular.

Na China, indivíduos seduzidos pela promessa de ganhos exorbitantes tomaram empréstimos pessoais para aplicar na bolsa de valores. O chamado “financiamento de margem”. Empresas, por sua vez, usaram suas ações como moeda corrente para pagar suas dívidas. O mercado de capitais chinês estava aquecido em razão da crescente demanda por ações. Um aquecimento artificial porque a economia real já mostrava sinais de declínio. Há indícios de produção em excesso. Demanda insuficiente. Bolhas imobiliárias. Especulativas.

Em nenhum tipo de mercado se vive só de compras. Ou só de vendas. Há um momento que o comprador quer vender o que comprou. E se não houver outros compradores interessados, os preços caem. É uma conta que nunca fecha. Sempre uns vão perder dinheiro para que outros possam ganhar. No mercado chinês, como os preços das ações estavam superavaliados, pelo excesso de demanda por papéis que não correspondiam a real situação econômica das empresas emissoras das ações, chegou o momento do próprio mercado corrigir esse preço. Nessa hora, quem ganhou dinheiro lá atrás salvou a pele. Mas quem ainda esperava ganhos ainda maiores e manteve papéis agora desvalorizados está sendo escalpelado.

O governo chinês ainda tentou emprestar mais recursos para que investidores comprassem mais ações e assim reequilibrassem o mercado de capitais. Mas quem seria tolo de fazê-lo, no exato momento em que o castelo de cartas está caindo? Não deu resultados. Quando passa a euforia dos ganhos fáceis, as pessoas se tornam mais conservadoras e freiam suas ambições. Em outras palavras, caem na dura realidade de que dinheiro não se propaga artificialmente. Na moderna economia simbólica isso até é possível. Mas por tempo limitado. Tal como numa pirâmide financeira, quem sai na frente lucra. Os retardatários pagam a conta.

Quanto aos perigos de contágio alardeados pela imprensa brasileira, não há nenhum fundamento para isso. O mercado de ações da China é bastante fechado, de caráter doméstico e concentrado em empresas locais. Dificilmente haverá impacto sistêmico, muito menos no Brasil, cujo mercado de capitais é pouco representativo da economia real do país. Mesmo na China, o mercado de ações corresponde a apenas 20% da riqueza de sua população, contra 54% de depósitos bancários no país, segundo dados do Wall Street Journal.

Os impactos econômicos externos e internos devem ser irrelevantes, apesar das expressivas perdas financeiras de inúmeros investidores individualmente. Uma das possíveis medidas do governo chinês para proteger a economia popular e estancar a queda da bolsa seria utilizar o Banco Popular da China para comprar diretamente as ações em queda e, assim, controlar a desvalorização dos papéis. Seria uma medida emergencial para restaurar a confiança dos investidores e minimizar as perdas daqueles que detêm grande parte de suas economias em ações. Isso seria alimentar a bolha e adiar o problema, além de sacrificar recursos para áreas sociais e produtivas. Mas quando se trata de mercado financeiro, os governos do mundo inteiro, independentemente de suas orientações políticas, são reféns e fieis servidores do capital especulativo. Ainda que as motivações sejam para proteger a economia popular.