quarta-feira, 8 de julho de 2015

Indivíduos indiferentes, sociedades disfuncionais, soluções medicalizantes

Hospital Souza Aguiar - Foto Isabela Kassow
"Uma alma triste mata mais rapidamente que um germe." (John Steinbeck)

Preferimos adoecer como indivíduos e nos medicar cotidianamente a buscar uma vida mais vigorosa, equilibrada e saudável. Preferimos adoecer como sociedade e nos encarcerar brutalmente a buscar uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável. 

Adotamos a disfuncionalidade como regra. Trocamos a prevenção pela medicação. A educação pelo encarceramento. Acostumamos a nos medicar e nos remediar individual e socialmente. De antidepressivos a prisões de segurança máxima, a solução é sempre temporária, paliativa, invasiva e medicamentosa. Sobretudo agressiva e violenta. Seus resultados desoladores.

Construímos uma sociedade cada vez mais individualizada, medicalizada e encarcerada. Amedrontada. Nossos organismos precisam de medicamentos cada vez mais potentes. Doses cada vez mais altas. Nossa sociedade exige punições cada vez mais severas. Penas cada vez mais duras. Sedação e punição. Sedação como punição. Punição como sedação. Social e individual.

Aprendemos a nos violentar regularmente até o limite da indiferença. O paradoxo é que grande parte da sociedade vive abandonada. Sequer é tratada. Apenas punida. Indiferença individual e social. Vítimas são apresentadas como causadoras de todos os males. O sintoma é confundido com a doença. Efeito se transforma em causa. E a outra parte da sociedade, que não sofre os males da exclusão social, vive amedrontada, egocentrada e distanciada.

Vivemos em mundos cujos afetos estão cada vez mais distanciados. A aproximação é apenas instrumental. Decorre de relações de produção, de interesses profissionais e da obtenção de resultados, materiais e emocionais. Relações utilitárias que formam redes antissociais, com objetivos unicamente pessoais. O outro só nos interessa quando o exploramos ou o culpamos de alguma coisa. Como disse Rudyard Kipling, todas as pessoas como nós são Nós e todas as outras são Eles. Essa é a patologia de nosso tempo.

Esquecemo-nos de que a constituição de uma sociedade altamente hierarquizada, competitiva e individualizada destrói as relações pessoais. A confiança é diminuída. A insatisfação atinge todas as classes. Haverá sempre alguém mais poderoso, mais bem sucedido, mais atraente, mais inteligente, mais isso ou mais aquilo. Enquanto os mais favorecidos se tornam ainda menos generosos, os menos favorecidos lutam apenas pela sobrevivência.

De acordo com Richard Wilkinson, epidemiologista da Universidade  de Nottingham, "em vez de uma sociedade melhor, a única coisa pela qual todos se empenham é a melhoria da própria posição, como indivíduos, na sociedade existente". Enquanto não buscarmos as causas efetivas de nossas disfunções para lidarmos com os problemas de nosso tempo, estaremos simplesmente nos medicalizando, ou seja, estaremos apenas atacando falsos problemas que, como escreveu Spinoza, "não mostram nada de substancial, mas são como adjetivos que requerem substantivos para sua explicação". A sociedade que somos e vivemos não é um dado da natureza. Depende, em grande medida, apesar de todos os determinismos possíveis, de nossas escolhas.