sábado, 11 de julho de 2015

A insatisfação de Narciso e a recusa do espelho

Narciso (1594-1596) - Caravaggio
"A necessidade de governar por meio de representantes deixa para o povo o problema da escolha desses representantes." (Dalmo de Abreu Dallari)

A democracia não é uma zona de conforto. É um espaço de conflitos, lutas e confrontação de valores. Exercer a cidadania é trabalhoso e desperta paixões. Mas somos quase sempre desinteressados ao escolhermos nossos representantes do poder legislativo. O debate gira praticamente em torno do poder executivo. Esquecemos que uma democracia se constrói com base na tripartição dos poderes.

Somos obcecados por presidentes, governadores e prefeitos mas é comum esquecermos da importância de nossos legisladores. O Congresso Nacional tem sido fonte de insatisfações e revoltas. A grande maioria de nós não se sente representada. Mas somente nós, na qualidade de eleitores, podemos efetivamente mudá-lo. 

Frequentemente nosso papel de cidadão tem sido substituído pelo papel de consumidor. Quando consumimos, temos a legitimidade e o direito de exigir que o fornecedor entregue o produto ou o serviço de acordo com o combinado entre as partes. No entanto, consumidores não participam do processo produtivo dos bens e serviços que consomem. Ao menos não diretamente. Há um claro distanciamento entre o consumidor e o processo produtivo. E, se há algum descumprimento de contrato por parte do fornecedor, dispomos de proteção legal e temos o direito de exigir o que nos foi prometido na relação de consumo. 

No exercício da cidadania, mimetizamos o papel de consumidores insatisfeitos. Entretanto, na qualidade de cidadãos, somos parte da realidade social que construímos, ainda que por meio de representantes eleitos. É uma diferença sutil, mas fundamental. O exercício da cidadania é muito mais complexo que uma relação de consumo. Enquanto o consumidor é mero usuário e não participa do processo produtivo daquilo que consome, o cidadão, por sua vez, é coprodutor da realidade política, econômica e social de um país. Ainda que esteja insatisfeito com a atividade legislativa, o cidadão é parte integrante do resultado final.

No entanto, estamos mais bem preparados para o papel de consumidores do que de cidadãos. A sociedade de consumo nos treinou muito bem. Cotidianamente. E embora haja uma diferença fundamental entre os papéis sociais de cidadão e consumidor, exercemos a cidadania de forma análoga ao modo como consumimos. Comportamento automático que nos tira a responsabilidade sobre os rumos do país. Nossas críticas ficam no campo do consumidor insatisfeito. O resultado são indignações que, embora importantes, são insuficientes ao pleno exercício da cidadania. Reivindicamos todos os direitos de cidadão mas nos eximimos das obrigações correspondentes. Somos intocáveis e em nada tocamos. Assim, ficamos purificados de toda culpa.

Temos uma enorme capacidade de esquecer que o Congresso Nacional, alvo de tantas indignações e revoltas, foi democraticamente eleito por nós. Nossos legisladores refletem, para o bem ou para o mal, a sociedade que somos. Mas por alguma razão, trata-se de um espelho ao qual temos nos recusado a olhar. Insatisfeitos com a imagem refletida, viramos o rosto e ignoramos o fato de que o reflexo não representa nada além de nós mesmos. De tempos em tempos trocamos os espelhos. Alteramos as imagens refletidas. Ainda assim, somos nós quem o espelho impiedosamente reflete. Uma sociedade narcisista mas insatisfeita com sua própria imagem.

Se estamos tão insatisfeitos, precisamos nos colocar a seguinte questão: que tipo de sociedade desejamos ser afinal? Uma sociedade segregada, individualizada, alienada, compartimentada, tecnicizada, desequilibrada, privatizada, terceirizada, encarcerada e, sobretudo, violenta? Sociedades são construídas mediante decisões tomadas pelos indivíduos que a compõem. Não são abstrações. São construções. Escolhas. Escolhas implicam algum grau de liberdade. Liberdade implica responsabilidade. Se eleitores são livres para votar, eleitores são também responsáveis pela construção de um país melhor. E se somos eleitores, a responsabilidade é nossa. Uma responsabilidade intransferível.