sexta-feira, 31 de julho de 2015

A imagem dos sons e o som das imagens

Goleiro Félix - Foto de Lemyr Martins
“A tela de televisão se tornou hoje uma espécie de espelho de Narciso, um lugar de exibição narcísica.” (Pierre Bourdieu)

Finalmente descobri por que detesto televisão. O motivo é simples. Óbvio. Mas nunca havia me dado conta. Sentado num sofá, numa sala de espera de hospital, sem motivo aparente, comecei a me sentir profundamente irritado. Impaciente. Não sabia o porquê. Até que descobri. A razão é que a televisão simplesmente não para de falar. Não dá sequer um segundo de trégua aos ouvidos.

O rádio também não para quieto. Fala o tempo todo. Mas o rádio não tem escolha. Só tem áudio. Se não falar ele morre. E o rádio ainda tem o seu charme porque permite a construção de imagens mentais. Estimula a imaginação. Quando criança, sempre ouvia os jogos do Fluminense pelo rádio. Na Rua Nascimento Silva, onde morava, o som de vários rádios ligados ao mesmo tempo ecoava pela rua. Deserta. Silenciosa. Suspensa. O som das tardes de domingo se misturava ao som dos rádios sintonizados nos jogos. A partir das narrações de Waldir Amaral e Jorge Cury, um jogo de futebol sempre iluminava aquele pedaço de rua.

Na minha imaginação, aqueles jogos também eram construídos por mim. Um mundo mágico se abria na minha cabeça. Lances sensacionais, jogadas impossíveis, defesas acrobáticas, passes perfeitos, chutes fulminantes, cabeçadas incríveis, dribles desconcertantes, lançamentos milimétricos, gols inacreditáveis. Até o dia em que fui pela primeira ao Maracanã. Levei um rádio de pilha. Decepção. Flamengo e Fluminense. Estádio lotado. Coração batendo a mil. Só que as imagens do jogo não correspondiam ao que estava ouvindo ali, naquele instante, simultaneamente pelo rádio.

A narração era um milhão de vezes mais emocionante. Então fechava os olhos só para ouvir as maravilhas descritas pelos radialistas. Lembro-me de uma bola fraca, rasteira, chutada de longe, no meio do gol, e defendida facilmente pelo goleiro Félix do Fluminense, que foi narrada mais ou menos assim pelo Jorge Cury: "Arranca Zico pela intermediária, dribla um, dribla dois, faz fila, lá vai o Galinho de Quintino, se aproxima da meia-lua o camisa 10 da Gávea, vai soltar a bomba, atenção, preparou, apontou, atirou... abraaaaaaaaaaaaça a criança Félix, sensacional... sem dar rebote, o arqueiro tricampeão do mundo rapidamente repõe a bola em jogo... e lá vai o tricolor das Laranjeiras armando o contra-ataque com Rivellino, a patada atômica, dá-lhe garoto!". Tudo isso num fôlego só. 

Até hoje consigo lembrar e reproduzir, na minha imaginação, essas narrações que conseguiam transformar qualquer jogada comum numa verdadeira Odisseia. Naquele dia tive até vontade de ir embora para ficar só ouvindo o jogo pelo rádio. Imagens sonoras que transformavam aqueles vinte e dois homens em campo em guerreiros homéricos, saídos de campos de batalha imemoriais. Félix, Zico, Rivellino, Manfrini, Júnior, Geraldo, Gil e tantos outros ídolos nos dois times. O futebol se tornava um épico nas vozes dramáticas daquelas lendas do rádio. Arte.

A televisão, diferentemente do rádio, é audiovisual. As imagens deveriam falar juntamente com o som. O silêncio das imagens também pode ser eloquente. Mas a televisão não permite que as imagens falem. Nem por um instante. Ela fala por cima das imagens. A TV não confia nas imagens que gera. Sempre haverá uma narração explicativa. Impositiva. E ao falar sem interrupção, é como se a TV não escutasse ninguém. Não há trocas. Não há espaços vazios. Não há respiração. É sufocante. As imagens na TV são apenas pretextos para narrativas mercadológicas. E o mercado quer tudo ao mesmo tempo. Som e imagem. Um excesso de estimulo. Ininterrupto.

Hoje, por acaso, o som da televisão da sala de espera parou de funcionar. A TV se calou por alguns segundos. Imediatamente comecei a me interessar pelas imagens. A irritação deu lugar a uma certa curiosidade. Não que a Ana Maria Braga "muda" fosse interessante. Mas o silêncio atenuou a imagem. Instigou a imaginação. De repente, o som voltou. Como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Percebi imediatamente a fonte da minha irritação. Não há silêncio na televisão. Não existem pausas sonoras. As imagens da televisão não se comparam às imagens do rádio. O som das imagens televisas jamais será igual às belas imagens que aprendi a ouvir no rádio quando criança.