segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Grécia é aqui. E o Haiti também.

Meninos de rua - Foto Isabela Kassow
"Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo o mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol." (Vladimir Maiakóvski)

A população grega está desapontada e indignada com os acordos feitos pelo seu governo com a troika. Aqui no Brasil o sentimento com o governo Dilma é o mesmo. Traição, mentira, estelionato eleitoral. Esses são sentimentos de um eleitorado frustrado em suas expectativas e uma oportunidade para oposicionistas de todas as vertentes se locupletarem com a situação. Candidatos de esquerda só se elegem quando moderam seus discursos. E só governam quando afrouxam suas ações. É o melhor dos mundos para os representantes do capital financeiro, seus porta-vozes midiáticos e seus respectivos partidos: um governo eleito mas fragilizado, obrigado a capitular e a frustrar seus eleitores e deleitar seus opositores.

Trata-se de um fato recorrente. Miterrand na França na década de 1980, Blair na Inglaterra dos anos 1990, Lula no Brasil, nos anos 2000, Obama, mais recentemente nos EUA e Bernie Sanders, se por algum milagre for eleito nas próximas eleições norte-americanas. Dilma, aqui e agora. Os exemplos são incontáveis. Quando o mundo vai compreender que os países "soberanos" não tem mais força, nem poder, para impor seus projetos de governo diante da supremacia do capital financeiro? Se nem países ricos conseguem governar sem restrições impostas pelos representantes das finanças mundiais, como poderiam fazê-lo os de baixa renda e os países em desenvolvimento? Parece que nossa intransigência nos cega.

Criamos o mundo do quanto pior melhor. O medo domina os afetos. A desesperança e a indignação reinam soberanas. A grande mídia funciona como porta-voz dessa estrutura no mundo inteiro. A ideologia dos mercados agradece. A classe média, cooptada em seus corações e mentes, é o soldado mais fiel de uma cosmovisão que, em vez de beneficiá-la, a destrói lentamente. Os ricos não se importam, são beneficiários diretos e indiretos. Levantam suas muralhas e seguem suas vidas à parte de tudo e de todos. Os pobres estão cada vez mais precarizados e abandonados. Lutam por sua subsistência a qualquer preço. Sequer possuem consciência crítica, tão ocupados que estão com a própria sobrevivência. Vivem apenas para sobreviver. Sobrevivem para viver. E os governos, ainda que de esquerda e com propósitos reformistas, pouco podem fazer. 

As estruturas são complexas. Como disse Warren Buffett, há uma luta de classes e a classe dele, dos bilionários, está ganhando. Com apoio dos dominados, que são adestrados ideologicamente todos os dias pela mídia alienante, os magnatas do capital sequer temem uma revolução. Desmontar essa bomba tornou-se tarefa quase impossível. Aqui e em qualquer lugar, somos todos Grécia. Mas é preciso compreender que não há "traição" por parte do governo grego. Pensar assim é ingenuidade. Maniqueísmo simplificador. É desconhecer as forças que movem o mundo de hoje. O conservadorismo financeiro é o dono da bola, é quem dá as cartas e dita todas as regras. O mundo, tal como ele é, tornou-se insustentável. E não apenas em termos ambientais. Vivemos num mundo socialmente insustentável.

Mas não podemos mais aceitar essa capitulação integral. Essa luta é de todos. Governos são muito mais frágeis do que sonham nossos vãos idealismos. Não podemos mais atribuir culpas e esperar governos milagrosos. Por mais bem intencionados que sejam nossos governantes, isolados como estão, bombardeados pela grande mídia, hostilizados pelas classes médias e sugados pelas classes dominantes, não dispõem das condições materiais e simbólicas para transformar esse estado de coisas e realizar as mudanças necessárias. Enquanto depositarmos todas as responsabilidades nos governos, nossas vidas serão cobertas de frustrações e ressentimentos.

Todos os governos de esquerda eleitos nos últimos trinta anos não conseguiram se impor aos ditames do capital financeiro e da ideologia neoliberal. A história é testemunha. É preciso mudar as percepções de uma vez por todas. Governos são necessários, imprescindíveis, mas não suficientes. Nem milagrosos. A margem de ação é cada vez mais apertada. O governo da Grécia merece todo apoio e toda força popular. Assim como os governos de esquerda do mundo inteiro que vivem sob ataques reiterados das mídias, da sociedade civil privilegiada e do grande capital.

Toda força de resistência é necessária. Cada pequena ação conta. Cada gesto. Real ou simbólico. O ceticismo cínico já não tem mais lugar no mundo. Se estamos de fato todos no mesmo barco, a hora é de unir as forças. A sociedade vale mais do que medidas de austeridade. A vida vale mais do que a acumulação financeira. O mundo não aguenta mais viver à merce da brutalidade das mesas de operações dos bancos de investimentos. A idade das trevas do capitalismo financeiro tem que dar lugar a um novo Renascimento. A ciência triste, a economia, tem que dar passagem à alegria. Uma idade de luz. Iluminação. Gente não é para ser massacrada. "Gente é pra brilhar".