quarta-feira, 15 de julho de 2015

A grande imprensa: ontem, hoje e sempre

Imagem Jojo Bombardo
"Precisamos de algo que domestique o rebanho desorientado, e esse algo é a nova revolução na arte da democracia: a produção do consenso." (Noam Chomsky)

O papel da grande imprensa brasileira não tem sido informar e sim instaurar medo e pânico na população. Especificamente em duas áreas: economia e segurança pública. Para tirar proveito desse medo, vende duas soluções: o mínimo de intervenção econômica e o máximo de repressão policial. O cidadão médio, sempre preocupado com suas posses, suas propriedades e sua integridade física, supostamente ameaçadas a todo instante, compra obedientemente o pacote. Seu sonho de consumo: menos impostos e mais cadeias. De preferências cadeias penitenciárias privatizadas.

Quando lemos os editoriais da grande imprensa, que expressam a opinião dos jornais, os interesses em jogo ficam bastante claros. Um editorial é favorável à redução da maioridade penal. Outro advoga pela lei da terceirização. Mais um editorial do posiciona-se contra o Imposto sobre Grandes Fortunas. Outro é favorável ao fim do regime de partilha do Pré-sal. Todos atacam a política de conteúdo local e questionam o papel do BNDES. Querem um Estado mínimo e exigem segurança máxima. Apoiam a remoção das favelas para fins de especulação imobiliária, assim como a condução de seus habitantes para áreas remotas nas periferias. Os exemplos não têm fim.

Neste momento, toda grande mídia escreve compulsivamente a favor de medidas punitivas contra a Grécia. Estão preocupados com as possíveis perdas de credores que vivem de especular contra empresas e países. Pregam ajustes fiscais como se pregassem um evangelho. Defendem os interesses do capital como se defendessem suas próprias existências. E isso não é de hoje. A grande mídia, com raras exceções, sempre pendeu para o lado do conservadorismo político, social e econômico.

Para se ter uma clara ideia, em 2 de abril de 1964 o editorial de O Globo aplaudiu o golpe militar: "Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos". De acordo com o Palmério Dória e Mylon Severiano, que pesquisaram as manchetes na época do golpe, "a instauração da ditadura militar era recebida assim: 'Democratas dominam toda a nação' (O Estado de S. Paulo); 'Multidões em júbilo na praça da Liberdade' (O Estado de Minas); 'Lacerda anuncia volta do país à democracia' (Correio da Manhã). 

Hoje e ontem uma grande parcela de leitores é influenciada cotidianamente por estes jornais. E seus similares. O Globo, a Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Estado de Minas e as revistas Veja, Isto É, Época e congêneres, todos defendem os mesmos interesses: derrubar o governo federal eleito, disseminar as ideologias neoliberais, homogeneizar a cultura, instaurar o medo generalizado e apoiar medidas de segurança pública cada vez mais severas. 

Esse é um dos problemas da da falta de regulamentação do setor de comunicações. O capital se concentra cada vez mais e, assim, são formados monopólios e oligopólios. O resultado final é que praticamente toda a mídia, televisiva ou impressa, acaba por expressar a mesma opinião. Ao invocar a liberdade de expressão, nossos porta-vozes midiáticos servem aos poderosos de sempre. E aceitamos com obediência e submissão. 

Os leitores se tornam ecos afinadíssimos das opiniões dos grandes jornais. Só que ainda com mais paixão e mais entusiasmo. Basta dar uma olhada na seção de cartas dos leitores. Trata-se de uma ótima amostragem da cabeça do leitor médio brasileiro. Quando reproduzem conteúdos com tamanha obediência e dedicação, como se estivessem a espera de uma nota 10, os leitores se mostram mais alinhados com as ideias dos jornais do que os próprios editores. Dominação sutil, simbólica, cotidiana e eficaz. A criatura supera o criador.

Assim, o círculo se fecha. A imprensa mantém seus lucros. (De)forma opiniões. Os cidadãos alimentam seus medos. Enganam suas esperanças. E o sistema é retroalimentado. As opiniões se uniformizam. Passam a fazer parte dos discursos do senso comum. Das salas de espera, das filas de banco, dos bares da esquina e das salas de visita de todo o país.