sábado, 27 de junho de 2015

Quando o conservadorismo econômico é a regra

Vintage typewritter - Scott Norris
"O maior inimigo da sabedoria convencional não são as ideias, mas a marcha dos acontecimentos." (John Keneth Galbraith)

As ciências sociais estão sempre com alguma defasagem em relação à realidade que estudam. A ciência econômica não foge à regra. Economistas vivem de seu conhecimento acumulado. Constroem reputações com base em saberes consagrados em um dado tempo e lugar. É natural que esses profissionais sejam conservadores. O mesmo acontece com jornalistas econômicos, que tendem a refletir o conservadorismo da academia. É necessário muito tempo para que paradigmas sejam substituídos. É muito difícil desapegar-se de preconceitos. Ainda mais quando se crê que na estabilidade de uma determinada área do conhecimento. 

Há muitos economistas, juntamente com seus seguidores, que entendem a economia como um conjunto de leis naturais. Leis praticamente imutáveis, assim como a física, a biologia, a química. Portanto, para tais economistas, não há muito o que se possa fazer em termos de política econômica. Basta seguir as leis de mercado, que todo o resto entra em uma espécie de equilíbrio cósmico. Com benefícios estendidos à sociedade como um todo. Embora os fatos contradigam a teoria econômica ortodoxa, esse tipo de concepção já se tornou praticamente senso comum. Entre economistas e não economistas. Especialmente entre nós brasileiros. 

A sabedoria convencional é um porto seguro. Dogmas são reconfortantes. Como escreveu certa vez John Kenneth Galbraith, "os indivíduos, mais notavelmente os grandes comentaristas da imprensa, fazem da sabedoria convencional uma profissão do saber e do dizer, com elegância, aquilo que seus ouvintes e leitores consideram mais aceitável". Não é por acaso que indicadores econômicos obsoletos ainda sejam utilizados tanto por economistas quanto por jornalistas aqui no Brasil. Basta acompanhar as publicações dos principais jornais e revistas da nossa grande imprensa. Indicadores tradicionais são a pedra de toque dos nossos analistas mais consagrados. Na imprensa e na academia. 

Apesar da tendência ao conservadorismo no campo acadêmico, economistas do mundo inteiro estão questionando cada vez mais a validade dos indicadores econômicos tradicionais. Michael Porter, por exemplo, da Universidade de Harvard, em artigo recente afirmou que "colocar o foco no progresso social leva a melhores estratégias de desenvolvimento e constrói o apoio político para as etapas controversas, muitas vezes necessárias para aumentar a prosperidade. A medição rigorosa do desempenho social, ao lado de indicadores econômicos tradicionais, é crucial para começar o círculo virtuoso pelo qual o crescimento do PIB melhora o desempenho social e ambiental de maneira a levar a um sucesso econômico ainda maior. E, evitando debates estreitos, como o PIB versus desigualdade de renda, o IPS - Índice de de Progresso Social - fornece uma ferramenta essencial para realizar habilmente uma agenda viável que faça exatamente isso". 

No Brasil a resistência ainda é a regra. Enquanto cientistas econômicos do resto do mundo, inclusive conservadores como Michael Porter, já utilizam critérios mais sofisticados de avaliação econômica, que levam em consideração, além dos indicadores tradicionais, variáveis ambientais, educacionais e sociais, aqui em nosso país ainda somos adoradores dos indicadores de sempre. Aquilo que hoje é chamado por nossa mais ilustre elite intelectual de "fundamentos macroeconômicos" (juros, inflação, câmbio, PIB, dívida pública), é tudo que nossos profissionais da área econômica possuem como patrimônio intelectual. Mas tenhamos compaixão. Superar e, consequentemente, abandonar esses fundamentos seria o mesmo que transformá-los em antigas máquinas de escrever. Só que sem o charme das clássicas Underwoods