terça-feira, 30 de junho de 2015

Pré-sal: riscos públicos, benefícios privados

Pré-sal. Produção de mais
de 500 mil barris por dia
"As empresas transnacionais, tendo muito dinheiro e apoio político de seus países de origem, podem mudar as políticas do país anfitrião de modo que elas, e não a economia local, sejam beneficiadas." (Ha-Joon Chang)

O senador José Serra apresentou no início de 2015 um projeto de lei que retira da Petrobras a liderança nos regimes de partilha de exploração do pré-sal. Também quer eliminar a cláusula de conteúdo local. Vale lembrar que Japão, Coreia, Taiwan e China são exemplos de países que obtiveram enorme sucesso com medidas regulatórias similares em diversos setores de suas economias. Mas por aqui, nossos senadores e deputados estão empenhados a entregar nossas riquezas e mercados ao capital estrangeiro, sem que nenhuma contrapartida seja exigida.  

Trata-se de um exemplo clássico da situação em que, a ser aprovada a lei, os riscos serão socializados e os benefícios privatizados. A Petrobras fez os investimentos. Assumiu todos os riscos. Bancou integralmente a viabilidade do projeto. Colocou toda sua expertise em ação. Uma vez comprovado o sucesso da empreitada, de 2010 a 2014, a média anual de produção diária do pré-sal cresceu quase 12 (doze) vezes, avançando de uma média de 42 mil barris por dia em 2010 para 492 mil barris por dia em 2014, o mercado agora quer se apropriar dos frutos

Em outras palavras, para desenvolver a tecnologia de prospecção em águas profundas e implementá-la com sucesso, a Petrobras estava capacitada. Mas para colher os resultados decorrentes de sua competência na gestão de projetos e de seus esforços financeiros, científicos, tecnológicos e organizacionais, a empresa é considerada inepta pela mídia especializada. Interessante que nossos jornalistas e economistas do pensamento mainstream ainda chamam isso de imperativo de eficiência. Mas não precisa ter nenhum PhD em economia para perceber que isso é apenas aquilo que a sabedoria convencional costuma chamar de desinibição. Ou, mais popularmente, cara de pau. Depois ainda dizem que o Bolsa Família é que torna cidadãos parasitários. A desinibição dessa gente é realmente notável. Quase uma arte. Ou seria artimanha? Simplesmente a arte da artimanha.