quinta-feira, 25 de junho de 2015

O fabuloso mundo das simplificações

Teahupoo by Wesley Singh
"A ética é complexa por não impor uma visão maniqueísta e renunciar à vingança punitiva." (Edgar Morin)

O debate público perdeu a sutileza. A sofisticação da argumentação foi substituída pela grosseria dos discursos obcecados. Estamos vivendo tempos em que a tecnologia digital penetrou a tal ponto em nossos cérebros que só conseguimos pensar em termos binários. Ou é 0 (zero) ou é 1 (um). Lógica binária. Moral maniqueísta. Bem ou mal. Eficiência ou ineficiência. Certo ou errado. Perdemos a simplicidade e a complexidade, que foram substituídas pelo rebuscamento da narrativa e pela simplificação do real. Uma representação pelos opostos anulou a possibilidade de gradações. É tudo ou nada. A humildade é substituída pela arrogância. A profundidade pela superficialidade. A cooperação pelo egoísmo. A dedicação pela pressa. A educação pela punição. A compaixão pelo ódio. A indignação pela inação. A tolerância pela impaciência. A justiça pela violência.

É fato que polarizações existem no mundo real. Não apenas o capital se concentra, mas as ideias também. No jogo político, para se colocar em prática qualquer projeto de exercício democrático de poder é preciso aglutinar forças, fazer concessões, buscar acordos e parcerias. Nem sempre em termos ideais. A negociação faz parte do jogo político. Em qualquer lugar do mundo, sejam quais forem os discursos políticos, quando seus ideais norteadores se transformam em conteúdos programáticos de governo, sofrem as limitações impostas pela arena política. O pragmatismo substitui a pureza conceitual. É preciso decidir. Fazer escolhas. Gerenciar demandas conflitantes, recursos escassos e lidar com forças estranhas ao campo estritamente político. Forças econômicas, jurídicas, sociais. Forças simbólicas. Internas e externas. Nacionais e internacionais. Locais e globais. 

Há muitas forças que moldam as decisões políticas. O capitalismo, principalmente na sua versão neoliberal, é muito mais que um sistema econômico. Como ensina o jurista Fábio Konder Comparato, o capitalismo é uma autêntica civilização. Uma força que vai além de qualquer limite geográfico e se estende pelo mundo inteiro. O capitalismo é "a primeira civilização mundial da História". Recusar-se a admitir esse fato é passaporte garantido para o mundo das simplificações, dos maniqueísmos, das interpretações ingênuas e distanciadas da realidade. E no mundo das simplificações, os culpados serão sempre os suspeitos de sempre. Do Estado ineficiente ao bandido cruel, os problemas são evidentes e as soluções sempre óbvias. No mundo das simplificações, a discussão se torna supérflua. O debate inócuo. Só há uma saída: o Estado mínimo e a segurança máxima. Um mundo ideologicamente construído por Constantinos e Datenas. 

Mas se quisermos de fato lutar por um mundo melhor, é preciso ir muito além do mundo das simplificações. Para o ser humano, que segundo Aristóteles é um animal político, não há outra saída a não ser posicionar-se enquanto cidadão. Deverá fazer suas escolhas políticas caso contrário outros o farão por ele. Ainda que não haja a representação política ideal, nem o caminho perfeito, participar do destino político de um país é sempre melhor do que a indiferença. A abstenção e a omissão, por parte do cidadão, embora sejam também atos políticos, abrem caminho para que forças dominantes ocupem os espaços vazios. Quando nos abstemos do voto e do debate político, quem ganha são os poderosos que vivem de conservar a vida como ela é. Entretanto, uma atmosfera de simplificação está no ar e nos tem levado ao empobrecimento da participação política e reforçado a proliferação de julgamentos levianos. 

Atualmente é comum sermos rotulados de coniventes com a corrupção e adoradores da indústria do petróleo se indagamos sobre outros escândalos que não sejam apenas a Lava-Jato, como por exemplo as operações HSBC-SwissLeaks e Zelotes. Se nos posicionamos em defesa de direitos humanos, somos imediatamente acusados de protetores de bandidos. Se nos preocupamos com manifestações em prol de uma intervenção militar, é porque somos antidemocráticos e não aceitamos a liberdade de expressão. Se analisamos dados estatísticos, indicadores sociais e econômicos e concluímos que estamos muito melhor hoje do que uma década atrás, e acreditamos que crises econômicas fazem parte do ciclo normal da economia de um país, somos tachados de governistas. Se defendemos a inclusão social e uma melhor distribuição de renda, é porque somos comunistas. Se apoiamos uma reforma agrária somos acusados de terroristas. Os exemplos são intermináveis.

Quando era garoto, aos nove anos, comecei a surfar. Naquela época o esporte era considerado marginal. Em 1975, surfar era coisa de bandido. Rapidamente tornei-me um adepto fervoroso do esporte. Poucas atividades conseguem conectar o ser humano à natureza como o surfe. Além de ser uma atividade que requer uma tecnologia apenas primitiva, o ato de surfar é um convite para se viver o momento presente. Quando se surfa só o que existe é aquele instante, que vale por ele mesmo. O mar testa seus limites. Faz você aprender a lidar com um dos afetos mais perversos: o medo. E apesar de toda sabedoria prática contida nessa atividade prosaica, as pessoas olhavam para seus praticantes com preconceito e desprezo. Como sempre diz Zé Celso Martinez Correa, tudo que vem acompanhado do sufixo "ista" é perigoso. Não passam de rótulos simplificadores. Surfista também era um rótulo depreciativo.

Hoje quando exponho meus pensamentos, em face de tantas críticas, tenho um sentimento análogo ao da minha infância. Assim como minha paixão pelo surfe, assumo meu posicionamento apaixonado pelos ideais de esquerda. Uma sociedade mais justa e igualitária. E democrática. E apesar de toda paixão, acredito que o aperfeiçoamento da sociedade seja possível mediante escolhas racionais. Acredito na lógica. Na racionalidade. E no coração. Luto pelas minhas convicções. Defendo com entusiamo minhas posições políticas. Não me furto ao debate. Mas não posso aceitar rotulações que tomam a parte pelo todo. Metonímias funcionam apenas como figuras de linguagem. Não se prestam a definições. Na minha infância, quando se referiam a mim como surfista, eu dizia: "Não sou surfista. Apenas surfo. Também jogo futebol e não sou futebolista". Hoje posso dizer praticamente a mesma coisa: não sou nada, apenas surfo. Sou um surfador. Surfo a dor e o prazer de todo dia. Em vez de ondas do mar, surfo nas ondas antropológicas, matemáticas, lógicas, sociológicas e filosóficas. Surfo por meio da literatura, da economia, da filosofia e da poesia. O mar é o mundo. O mundo é meu mar. Sou uma ínfima parte de qualquer coisa. Sem nenhuma definição possível.