sábado, 20 de junho de 2015

O economista e a cartomante

Festa Cigana, Mapa de Cultura RJ - Foto Isabela Kassow 
"No mundo econômico, em especial no mundo financeiro, fazer previsões sobre o que não se sabe e sobre o que não é sabível é uma ocupação apreciada e bem paga." (John Kenneth Gailbraith)

Previsões buscam reduzir a incerteza, analisar as probabilidades de ocorrência de eventos futuros e conhecer, pelo menos em cenários hipotéticos, as consequências mais prováveis de uma dada ocorrência possível. No final das contas, previsões buscam um mínimo de segurança num mundo de inseguranças e incertezas.

Existem vários tipos de previsão. Do tempo, do futebol, dos mercados financeiros, do crescimento da economia, do sucesso de um negócio, da ocorrência de um amor. Vários profissionais se ocupam das previsões. Meteorologistas, analistas financeiros, comentaristas esportivos, economistas, cartomantes. A vantagem é que ganham a vida para prever. Se a previsão não se confirmar, suas reputações permanecem intactas. É o tipo da profissão em que o resultado não interessa. Basta o esforço, a tentativa, o empenho, a coragem e, algumas vezes, a desinibição. Seus clientes são crédulos o bastante para não se importarem muito com os resultados. O que importa é a esperança de algo vindouro. Sempre renovada. 

Algumas previsões, no entanto, são mais manejáveis do que outras. Há casos em que a previsão, além do componente da incerteza, também é afetada pela multiplicidade das variáveis possíveis. No caso de um jogo de futebol a incerteza está presente. Mas as possibilidades são apenas três. O time ganha, empata ou perde. No caso da previsão do tempo também não há muitas possibilidades. Chove, fica nublado, ou faz sol. O que varia são as intensidades. Chuva fraca, nuvens passageiras, sol escaldante. E por aí vai. No caso do amor, a questão geralmente se resolve com bem-me-quer, mal-me-quer. Ninguém quer um meio-termo. A outra metade ou ama ou não ama. Se ama, temos o céu. Se não ama, temos o inferno. 

Como se pode ver, muitas das previsões, embora incertas, são mais fáceis de se prever em razão das chances probabilísticas: futebol 1/3, tempo 1/4, amor 1/2. Em economia a situação é um pouco mais complexa. Analistas de mercado, macroeconomistas, jornalistas econômicos e até o taxista, todos vivem, em maior ou menor grau, de previsões econômicas. Mas aí a complexidade se multiplica. Os eventos econômicos são todos incertos. Economia não é uma ciência exata. As variáveis interagem entre si, alterando resultados e multiplicando efeitos, de modo que nenhuma modelagem matemática, por mais sofisticada que seja, é capaz de dar conta. O resultado de uma combinação de incertezas, associada a mais incertezas, jamais pode ser conhecido. 

Os fracassos em previsão econômica, longe de serem a exceção, são a impiedosa regra. As grandes crises econômicas e financeiras estão aí para provar. As agências de risco erram o tempo inteiro. Mas isso pouco importa. Como disse uma vez John Kenneth Galbraith, "uma vez que a previsão é aquilo que os outros querem ouvir, aquilo que querem lucrar e aquilo que lhes dará retorno, a esperança e a necessidade encobrem a realidade. Assim, no mercado financeiro muitas vezes comemoramos e, às vezes, damos boas-vindas a erros fundamentais". 


Em economia existem muitas previsões, muitos erros e nenhuma certeza. Mas curiosamente  analistas vendem certeza. E erram tanto que já nem percebem mais seus fracassos. Trata-se de mais um estranho caso em que o fracasso sobe à cabeça e confere prestígio ao fracassado. E ganhos financeiros estratosféricos.  Quando os analistas econômicos acertam é apenas porque o acaso lhes favoreceu naquela situação específica. E um pequeno acerto, entre incontáveis erros, é orgulhosamente contabilizado como prova do exercício bem sucedido de uma respeitável carreira profissional. 

O mais curioso é que os usuários das previsões econômicas (investidores, empresários, governantes, estudantes, leitores de revistas e jornais) aceitam de bom grado essa pequena grande fraude. E pagam caro por ela. Direta ou indiretamente. Talvez a explicação seja semelhante ao que nos faz crer nas cartomantes. Queremos acreditar naquilo que ouvimos. E temos sempre uma chance do acaso. E se o acaso não nos favorece, ainda temos a chance de agir conforme o previsto nas cartas. Situação em que a profecia se torna auto-realizável. As cartas dizem que vou encontrar meu grande amor em breve. E a primeira pessoa que tropeça na minha frente é eleita como o grande amor. E passo a viver e agir de modo que as cartas não mintam jamais.

Em economia, quando todos os analistas clamam por recessão, além de sempre existir uma chance real de a economia de um país se retrair em algum período de sua história, todos passam a agir de modo que a recessão de fato aconteça. Deixamos de investir, de contratar, de consumir, de confiar, de arriscar. E caímos numa espiral negativa. No Brasil de hoje, basta abrir os jornais para dar vontade de emigrar para longe dos trópicos. Ainda que nossos indicadores econômicos sejam melhores do que a maior parte dos países do mundo. Preferimos acreditar, como na música de Caetano, que tudo vai mal. Tudo. 

O inverso também é verdadeiro. No amor e na economia. Quando as previsões são favoráveis, o mundo se abre para nós. No mundo da economia, se tudo vai bem, se as previsões são benignas, acreditamos que uma demissão, após anos de dedicação numa empresa para a qual demos os melhores anos de nossas vidas, é a chance para a grande virada existencial. A oportunidade para aquele ano sabático. Para dedicarmos mais tempo a "nós mesmos" e finalmente fazermos aquilo que de fato gostamos. Aproveitamos para cuidar da saúde, melhorar a qualidade de nossas vidas, ter mais tempo para a família. 

Se as previsões forem boas, o céu é o limite. Mas se as expectativas forem sombrias, nem o inferno é profundo demais. Em nosso país, a julgar pelas previsões da infinidade de analistas econômicos de plantão, uma demissão, à luz do cenário econômico previsto, poderia nos levar até ao suicídio. E se a demissão for em massa, nos casos de "reestruturação organizacional", um suicídio coletivo não seria improvável. É o que o nosso amigo taxista possivelmente iria prever.