domingo, 28 de junho de 2015

Fragmentos de um discurso econômico

"O governo não só apara as arestas ásperas do capitalismo; em primeiro lugar ele torna possíveis os mercados. Se você estiver num coquetel, verá muita gente concordando com a cabeça ao dizer que, se o governo simplesmente saísse da frente, os mercados poderiam produzir prosperidade para todo o planeta. Só há um problema com esse sentimento presente no coquetel: ele está errado. O bom governo torna a economia de mercado possível. Ponto final."
(Charles Wheelan)


Há tantos mitos em economia quanto existem teorias para explicá-los. Algo ainda pouco estudado pelos linguistas é o poder da narrativa na criação de mitos econômicos. Crises econômicas também são construídas pela linguagem. Instauradas pelo discurso. Economia também é uma questão de narrativa. As medidas de ajuste fiscal, por exemplo, sequer estão em vigor e nosso jornalismo econômico escreve como se elas já estivessem produzindo efeitos reais desde o início do ano. Um claro exemplo de como o lado simbólico da economia pode ser tão perverso quanto o seu lado real. Há uma interessante passagem do livro Economia nua e crua, de Charles Wheelan, que ilustra muito bem como as percepções em economia podem ser mais impactantes do que os fatos em si:

"Muitos anos atrás saí de férias com um grupo de amigos. Quando expliquei que estava estudando políticas públicas, um de meus companheiros perguntou com ceticismo: 'Se as pessoas sabem tanto sobre políticas públicas, então por que tudo está uma enorme bagunça?' Por um lado essa era uma pergunta idiota. Equivale mais ou menos a perguntar: 'Se sabemos tanto de medicina, por que as pessoas continuam a morrer o tempo todo?' É sempre possível aparecer com réplicas espertas uma década depois. Na época, resmunguei algo como: 'Bem, é complicado'. Poderia ter mostrado que no campo das políticas públicas, como na medicina, temos conseguido algumas vitórias importantes."

Essa passagem nos leva a seguinte reflexão: O Brasil na última década apresentou uma melhora significativa em todos os indicadores sociais e econômicos. Apesar da recente crise anunciada, que está muito mais relacionada a expectativas negativas auto-realizáveis, criadas por um ambiente hostil por parte da grande mídia, da oposição e de alguns setores da sociedade civil, do que a questões econômicas reais, o fato é que hoje somos, em média, mais saudáveis, mais ricos, mais escolarizados e menos vulneráveis às volatilidades da economia do que em qualquer outro momento de nossa história.

As estatísticas das séries temporais demonstram claramente essa evolução. São informações públicas, gratuitas e estão disponíveis pela internet a todos os interessados. Os dados históricos podem ser acessados na página do Banco Central (Indicadores econômicos consolidados). Mas quem se interessa por dados estatísticos? Não são atraentes. Narrativas dramatizadas de uma suposta crise podem ser um instrumento muito mais eficaz para produzir efeitos do que suas causas reais. A maior habilidade do ser humano, e o que mais o diferencia de outros animais, é a sua notável capacidade para criar ficções. E, a partir da ficção, forjar a realidade que lhe convém.