sábado, 20 de junho de 2015

Economia: uma questão de escolha

"A inevitável dinâmica da competição e da integração econômica global tornou-se a ilusão da nossa era. Como Margaret Thatcher disse certa vez: não existe alternativa." (Tony Judt)

Não há leis naturais em economia. O que há são políticas econômicas decorrentes de decisões humanas. Mas os neoliberais, inspirados nos economistas clássicos do século XVIII e XIX, querem nos persuadir de que a economia é regida por leis naturais. Segundo a retórica neoliberal, a concentração da renda e da riqueza, por exemplo, seria algo natural e plenamente justificável por meio de leis econômicas imutáveis no tempo e no espaço. De acordo com essa tese, os mais aptos são recompensados materialmente exclusivamente por seus méritos. E os pobres são punidos pelas suas inadequações. E não há o que se possa fazer a esse respeito. Um claro retorno ao darwinismo social de Herbert Spencer. 

No entanto, a história econômica nos ensina o contrário. Por mais de 30 anos, nos países desenvolvidos, a social democracia e o Estado de bem-estar social deram conta de construir uma economia capitalista, sem recorrer aos extremos do dirigismo estatal, com menos desigualdade e mais inclusão social. E o fizeram por meio de decisões políticas. A extrema desigualdade, conforme demonstrou a história, não é uma inevitabilidade da natureza. Não é pressuposto de nenhum sistema econômico. Decorre simplesmente de decisões no âmbito da economia política. Ou da falta delas.

A economia depende de escolhas humanas. É contingente. E a ciência econômica ortodoxa é uma narrativa, dentre muitas outras possíveis. Não é ciência exata. Como será o futuro dependerá das nossas escolhas. Humanas. E como narraremos essas escolhas. Hoje, a narrativa dominante é o discurso neoliberal. Políticos, economistas, jornalistas, formadores de opinião, todos se apropriaram dessa narrativa, de um mundo regido livremente pelos mercados, e a transformaram em realidade natural. Naturalizam o comportamento dos agentes econômicos, como se houvesse leis naturais regendo cada decisão econômica. Tudo racionalmente estruturado e perfeitamente equilibrado. Segundo essa ideologia, não há alternativa a não ser se adaptar às leis de mercado. Uma vez identificados e compreendidos o funcionamento dos mercados, só nos resta viver de acordo com suas leis.

Mas nada que integra essa narrativa é "natural", "inevitável", "irreversível". Tampouco científico. Não se trata de nenhum processo natural. Privatização, desregulamentação, precarização, terceirização, globalização, austeridade fiscal, abertura de mercados, salários discrepantes, câmbios flutuantes, juros delirantes, etc. Nada disso é natural. São apenas escolhas humanas. Escolhas feitas por aqueles que mais se beneficiam delas. Decisões interessadas. São discursos retóricos que não traduzem o mundo real e sim interesses previamente definidos. Estudados. Estruturados. Escolhidos.

Para virarmos esse jogo da suposta "inevitabilidade econômica", que invariavelmente só beneficia uma poderosa classe de privilegiados em detrimento do resto do mundo, é preciso inventarmos uma outra narrativa, que tenha a força de se converter em políticas públicas, com impactos positivos no mundo real. Ou seja, com uma existência para além dos livros-textos dos economistas ortodoxos. Uma narrativa cuja única inevitabilidade seja a escolha. A escolha de uma política econômica que seja realmente inclusiva, igualitária e muito mais justa. E lutar por ela como quem luta pela própria vida.