terça-feira, 16 de junho de 2015

A mão visível da cooperação

M. C. Escher - Bond of Union (1956)
"O egoísmo é desconfortável até para os egoístas." (Tony Judt)

Em seu livro A Riqueza das Nações, Adam Smith escreveu que “ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo”. Essa é a lógica da "mão invisível". De acordo com Smith, se cada um agisse de modo a buscar seus interesses individuais, o resultado final seria uma sociedade mais justa e equilibrada. O egoísmo agiria naturalmente em benefício da coletividade.

Decorridos mais de dois séculos da célebre passagem de A Riqueza das Nações, convenhamos que a "mão invisível" não cumpriu sua promessa. O individualismo como estilo de vida tem nos empurrado para um mundo cada vez mais desigual, excludente e injusto. Diante de estatísticas, relatórios, artigos científicos e, principalmente, da simples observação da realidade, nos sentimos cada vez mais impotentes e desorientados. Mas... e se subvertêssemos essa lógica da "mão invisível"? E se invertêssemos os sinais dessa equação? Como seria um mundo regido pelo altruísmo em vez do egoísmo? 

Como diz a música de Jorge Ben Jor: "Malandro que é malandro não bobeia. Se malandro soubesse como é bom ser honesto. Seria honesto só por malandragem". 

Seguindo a lógica da música, o autêntico egoísta, se soubesse como é bom ser altruísta, agiria altruisticamente só por egoísmo. Se promovêssemos ações cooperativas, em vez de competitivas, nos beneficiaríamos enquanto indivíduos. De acordo com essa suposição, um mundo mais igualitário, inclusivo e baseado na cooperação, em lugar da competição, traria indiretamente benefícios a todos os seres humanos individualmente. Assim, o indivíduo se beneficiaria pelo simples fato de a coletividade passar a ser a prioridade individual de cada um. 

Talvez essa proposta não passe de mais uma utopia inexequível. Mas o que temos a perder? Coloquemos nossas mãos visíveis na massa. Nas pequenas ações cotidianas, no dia a dia, em casa, no trabalho, no espaço público. Ajamos com altruísmo e alteridade. Passemos a incluir "o outro" em nossas "variáveis de decisão". Sejamos mais unidos, cooperativos, coletivos, afetivos, participativos, prestativos, desinteressados, humanitários, includentes, fraternais, generosos, solidários, ainda que por egoísmo. Nossos interesses mais egoístas e inconfessáveis talvez sejam recompensados ao construirmos um mundo mais altruísta para se viver e conviver. No mínimo nos tornaremos pessoas mais agradáveis. Ainda que por egoísmo.