segunda-feira, 1 de junho de 2015

Antropofagia estéril

Oswald de Andrade por Anita Malfatti
"É verdade que já estamos muito endividados..."
(O rei da vela, Oswald de Andrade)

Os juros cobrados nas vendas a prazo são uma forma de se pagar muito mais caro pelos produtos que adquirimos. O mesmo vale para os juros do cheque especial e do empréstimo rotativo dos cartões de crédito, que fazem nossas dívidas se multiplicarem rapidamente. Como afirma o professor Ladislau Dowbor, "as pessoas se endividam muito e compram pouco". 

A diferença entre o que pagamos e o que levamos é o juro. Esse excedente vai para os bancos e financeiras. E quando esses juros incidem sobre juros ao deixarmos nossas contas especiais negativas ou efetuarmos pagamentos mínimos em nossos cartões de crédito, o efeito exponencial faz com que os débitos financeiros cresçam assustadoramente. Lucro garantido. Sem suar a camisa. Sem nada produzir. Como disse certa vez John Kenneth Galbraith, "a maneira como os bancos ganham dinheiro é tão simples que é repugnante". 

Como o dinheiro que gastamos com juros é obtido pelo trabalho, que equivale a tempo das nossas vidas, no final das contas, trocamos tempo de vida por juros. E por algum produto que provavelmente não nos fará nenhuma falta. Péssimo negócio. E como quem paga mais juros são aqueles com renda mais baixa, a engrenagem torna-se ainda mais perversa. Escambo de vida por consumo. Reflexos da insanidade humana. E da exploração desumana. Num ritual de antropofagia estéril, nos tornamos um tipo de humanidade única, que explora e consome a si mesma.