quarta-feira, 10 de junho de 2015

Adam Smith, muito além da mão invisível

Adam Smith, 1723 — 1790
"Assim como Karl Marx é uma fonte de conhecimento social demasiado valiosa para ser deixado como propriedade exclusiva dos comunistas, Adam Smith é demasiado sábio e divertido para ser relegado aos conservadores, poucos dos quais alguma vez o leram." (John Kenneth Galbraith)

Os liberais conservadores, ou neoliberais, inspirados nos economistas clássicos, frequentemente citam como referência para suas ideias Adam Smith, filósofo e economista clássico do século XVIII. Para os novos arautos do pensamento liberal, que escrevem diariamente em jornais, blogs e revistas, Adam Smith é uma espécie de mentor intelectual, que teria oferecido fundamentação teórica para a ideia de que as desigualdades sociais seriam algo natural e inerente à condição humana. Nada mais equivocado. 

Adam Smith, de fato, foi um liberal e sempre defendeu a superioridade do livre mercado em relação a outras formas de organização econômica. Seu alvo principal era o mercantilismo. Mas uma leitura atenta de sua obra nos mostra que sua formação humanística e filosófica o tornava um pensador muito mais sutil e sofisticado, que compreendia as nuances e contradições do funcionamento de uma economia de mercado, embora fosse seu defensor mais notável. 

Seu livro mais célebre, A Riqueza das Nações, é uma espécie de bíblia, que os neoliberais adoram citar, mas que dele provavelmente só leram a passagem da mão invisível, a qual transcrevo a seguir: “Orientando sua atividade de tal maneira que sua produção seja de maior valor, o mercador ou o comerciante visa apenas seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como que por uma mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções. Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo”. 

No debate acadêmico dos pesos pesados da economia atual, há uma tendência a refutar a hipótese da "mão invisível". Joseph E. Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel de Economia em 2001, e outros teóricos importantes, demostraram, em farta literatura, que os mercados livres frequentemente não só conduzem à injustiça social, mas sequer produzem resultados eficientes. 

Mas a despeito de todas as críticas à ideia da mão invisível, vale a pena ler o texto de A Riqueza das Nações na íntegra. Além de muito bem escrito, há diversas passagens no livro em que o autor faz uma análise crítica sobre a propriedade privada, admite a existência de um conflito de classes (ainda que se utilizasse de outra terminologia) e da formação de monopólios. Essas passagens oferecem uma visão mais ampla do pensamento do autor, que vai além da frequentemente citada pelos nossos (de)formadores de opinião. Vejamos:

"O governo civil, instituído com a finalidade de oferecer segurança à propriedade, é, na realidade, instituído para defender o rico do pobre ou os que têm alguma propriedade dos que não têm propriedade nenhuma".

"Os salários correntes do trabalho dependem do contrato estabelecido entre duas partes, cujos interesses não são, de modo algum, idênticos. Os trabalhadores desejam obter o máximo possível; os patrões, dar o mínimo. Os primeiros se unem para elevá-los; os segundos, para rebaixá-los. Não é difícil, no entanto, prever qual das partes vencerá na disputa e forçará a outra a aceitar suas condições. Os patrões, ao serem em menor número, podem se unir facilmente".

"Além disso, em tais confrontos, os patrões podem resistir durante muito mais tempo. Um proprietário de terras, um colono, um comerciante ou um fabricante podem, normalmente, viver um ano ou dois com os capitais que já adquiriram, sem ter que empregar nenhum trabalhador. Em troca, muitos trabalhadores não poderiam subsistir uma semana, alguns poucos poderiam fazê-lo durante um mês, e um número escasso deles poderia viver durante um ano sem emprego. Ao longo prazo, o trabalhador é tão necessário para o patrão como este o é para ele, mas a necessidade do patrão não é tão imediata".

"O interesse dos empresários, porém, em qualquer ramo de comércio ou indústria é sempre, em alguns aspectos, diferente e até mesmo oposto ao interesse do povo… Seu interesse é sempre diminuir a concorrência… Mas isso sempre será contrário… (aos interesses do povo), e só poderá servir para permitir que os empresários, aumentando seus lucros para níveis maiores que o normal, cobrem, em proveito próprio, um imposto absurdo do resto de seus concidadãos".

Em outro livro importante, intitulado Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith faz uma constatação categórica, que contradiz a suposição corrente de que seu pensamento não levava em conta as mazelas da desigualdade social. Smith diz que "nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz enquanto parte de seus integrantes for pobre e miserável". E arremata: "A disposição de admirar, quase idolatrar os ricos e poderosos, e desprezar as pessoas de condições precárias e pobres é a maior causa universal da corrupção de nossos sentimentos morais". Como se pode notar, a ideologia do "cada um por si e todos por nenhum" não faz parte do pensamento filosófico do autor.

Tony Judt, em seu livro O Mal ronda a Terra, também nos oferece uma interpretação que ultrapassa a visão convencional sobre o pensador escocês, ao afirmar que "para Smith, a adulação crítica da riqueza pela riqueza não era apenas desagradável. Era uma característica potencialmente destrutiva da moderna economia comercial, que com o passar do tempo, a seu ver, mina as qualidades que o capitalismo precisa conter para se sustentar e nutrir". No mesmo livro, Judt cita novamente Smith: "Sentir muito pelos outros e pouco por si; conter o egoísmo e exercitar os afetos benevolentes constituem a perfeição da natureza humana". Na visão dos articulistas da grande mídia, uma frase como esta só poderia ser atribuível a algum lunático pensador da esquerda "retrógrada". Jamais ao nobre "guru" da causa neoliberal. 

Como podemos perceber, a obra de Adam Smith vai muito além da interpretação empobrecedora daqueles que hoje alegam ser seus herdeiros intelectuais. Somos bombardeados por opiniões superficiais de supostos especialistas da história do pensamento econômico, que não passam de leitores de orelhas de livros. Pessoas que propagam uma cultura de segunda mão, tão-somente para defender seus interesses mais mesquinhos. Com essa gente, todo cuidado é pouco. Melhor ir direto na fonte. Ler um clássico, inclusive os clássicos do pensamento econômico, é sempre uma dádiva.