terça-feira, 30 de junho de 2015

A ruína da razão ou quando causa e efeito se confundem

Intervenção policial em Buenos Aires na crise de 2001
"Não há erro mais perigoso do confundir a consequência e a causa: eu o denomino a verdadeira ruína da razão." (Friedrich Nietzsche)

Para aqueles que citaram o caso da Argentina para defender a capitulação da Grécia ante as condições impostas pela troika, seguem algumas considerações: 

A Argentina não quebrou porque deixou de pagar a dívida. O não pagamento da dívida foi o efeito e não a causa de sua crise. Ela quebrou por causa dos acordos draconianos com o FMI e o Banco Mundial. É comum confundir causa com efeito. Não foi porque não pagou a dívida, mas sim porque aceitou as condições impagáveis. Aí é claro que não conseguiria pagar. E não pagou. Com o uso da lógica, pura e simples, é possível distinguir causas e efeitos.

No auge das políticas neoliberais no mundo capitalista, traduzidas pelo que se convencionou chamar de Consenso de Washington, o FMI e o Banco Mundial impuseram condições draconianas aos países latino-americanos e asiáticos. Os latino-americanos cederam sem ressalvas, por temerem a interrupção dos fluxos de recursos externos. Os asiáticos negociaram com habilidade e firmeza. Aderiram a algumas práticas impostas pelos organismos multilaterais, mas o fizeram à sua maneira. Impuseram condições razoáveis para ambas as partes e venceram a queda de braço. Saíram fortalecidos.
Por sua vez, o resultado na América Latina, ao final da década de 1990, não teve o mesmo desfecho: seus dois maiores países se viram em apuros. A Argentina quebrada e o Brasil estagnado. E vários países do continente com suas economias em colapso sistêmico. Já os tigres asiáticos decolaram e se mantiveram sólidos, mesmo sofrendo pesados ataques especulativos. O Brasil só retomou o crescimento quando se libertou das amarras do Consenso de Washington, por volta dos anos de 2003 e 2004. A Argentina até hoje não se recuperou.
Nietzsche já havia alertado sobre os perigos dessa confusão, em seu livro Crepúsculo dos ídolos, numa passagem intitulada O erro da confusão entre a causa e o efeito. Vejamos. "A igreja e moral dizem: 'o vício e o luxo levam um estirpe ou um povo à ruína'. Minha razão restaurada diz: se um povo se arruína, degenera fisiologicamente, seguem-se daí o vício e o luxo (ou seja, a necessidade de estímulos cada vez mais fortes e mais frequentes, como sabe toda natureza esgotada)".
Eis um bom exemplo de que a sabedoria para compreender os fatos atuais não está necessariamente expressa no New York Times, no Wall Street Journal, na The Economist, ou na última análise do dia elaborada pelo analista econômico de plantão. O que procuramos pode estar escondido em um texto escrito mais de um século atrás. Ou até milênios atrás. Há muito mais sabedoria acumulada ao longo da história humana do que sonha nossa vã economia.