sábado, 13 de junho de 2015

Por uma Grécia forte como nos tempos homéricos

John William Waterhouse - Ulisses e as sereias (1891)
"O meu coração aguenta: pois já muito sofri no mar e na guerra. Que isto agora se junte ao que já aguentei."
(Ulisses, Odisseia canto XVII)

O PIB da Grécia declinou 25% desde o início da crise em 2008. E as medidas de austeridade fiscal impostas pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu-BCE e Fundo Monetário Internacional não só fracassaram como agravaram a situação do país. A Grécia terá que lutar por um acordo que seja viável para ambas as partes, devedores e credores, com base na confiança mútua. O maior poder de barganha do devedor é ele mesmo. O credor, por definição, só é credor porque há um devedor. Sem o devedor, o credor não existe. Ele precisa do devedor para continuar auferindo ganhos financeiros. Em outras palavras, apesar do maior poder de negociação dos credores em relação aos devedores, ambos estão no mesmo barco.

No auge das políticas neoliberais no mundo capitalista, traduzidas pelo que se convencionou chamar de Consenso de Washington, o FMI e o Banco Mundial impuseram condições draconianas aos países latino-americanos e aos asiáticos. Os latino-americanos cederam sem ressalvas, por temerem a interrupção dos fluxos de recursos externos. Os asiáticos negociaram com habilidade e firmeza. Aderiram a algumas práticas impostas pelos organismos multilaterais, mas o fizeram à sua maneira. Impuseram condições razoáveis para ambas as partes e venceram a queda de braço. Saíram fortalecidos. 

Por sua vez, o resultado na América Latina, ao final da década de 1990, não teve o mesmo desfecho: seus dois maiores países se viram em apuros. A Argentina quebrada e o Brasil estagnado. E vários países do continente com suas economias em colapso sistêmico. Já os Tigres Asiáticos decolaram e se mantiveram sólidos, mesmo sofrendo pesados ataques especulativos. O Brasil só retomou o crescimento quando se libertou das amarras do Consenso de Washington, por volta dos anos de 2003 e 2004. 

Seguiu-se a partir daí, no Brasil, uma década de crescimento e uma melhora expressiva em todos os indicadores econômicos. Embora o momento agora seja de crise, a decisão à época de mudar a política econômica de orientação neoliberal para uma estratégia desenvolvimentista foi acertada. A gestão anticíclica do Ministro Guido Mantega na crise de 2008 foi extremamente hábil. A história lhe dará razão. Mas economias não são estáticas. Mudam de forma repentina. De tempos em tempos. Crises são parte integrante do sistema capitalista. E de sua lógica interna.

Nos últimos cem anos, aproximadamente, o mundo viveu praticamente uma grande crise a cada dez anos, à exceção do longo período logo após a Segunda Guerra Mundial até meados dos anos 1970. Foram os anos de ouro do Estado de bem-estar social e da social-democracia nos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos, quando as políticas keynesianas conseguiram trazer ao capitalismo o seu melhor resultado. Crescimento econômico, estabilidade e inclusão social.

Até que a escola austríaca de economia, liderada por Friedrich Hayek,  Ludwig Von Mises, Joseph Schumpeter, Karl Popper, e Peter Drucker, todos imigrantes da Europa Central, ganhasse força nas universidades norte-americanas, em especial na Universidade de Chicago. Com as eleições de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o neoliberalismo de Milton Friedman conquistou os corações e mentes dos formuladores de política econômica mundo afora. Desde então, crises sistêmicas são recorrentes nas economias capitalistas. Não se passa uma década sem a ocorrência de turbulências importantes na economia, sempre agravadas pela desregulamentação excessiva dos mercados financeiros. Os efeitos da crise mais devastadora das últimas décadas, deflagrada em 2007/2008, ainda reverberam até hoje.

No Brasil, embora os efeitos da crise de 2008 tenham sido neutralizados, fatores externos recentes e conjunturais interromperam o ciclo virtuoso. O momento é crítico, mas não o suficiente para entrarmos numa espiral descendente. A equipe econômica do governo federal tem competência técnica para reverter a situação. Ao contrário das opiniões que proliferam nos jornais, revistas e telejornais brasileiros, não há indícios de colapso. Porém, é preciso não se deixar levar pelas soluções ortodoxas, cujos efeitos devastadores são conhecidos. É preciso encontrar um equilíbrio sutil entre medidas de ajuste fiscal e estímulos saudáveis à economia. O exemplo da Grécia, embora extremado, pode ser emblemático para demonstrar o que deve ser evitado. Estruturalmente, o Brasil é um país muito mais sólido hoje do que na década de 1990. As séries históricas demostram resultados positivos à exaustão. Mas em economia, um erro na dose pode tornar o remédio mais letal do que a doença.

A Grécia hoje sofre as consequências de uma doença aguda, deflagrada pela crise de 2008. E dos efeitos colaterais do remédio, as medidas de austeridade em dose cavalar, que se não foram letais ainda, contribuíram para tornar um caso agudo numa moléstia crônica. Portanto, por mais crítica que seja a situação, a Grécia não pode ceder às chantagens da União Europeia. A confiança deve ser uma via de mão dupla. Como disse o economista Joseph Stiglitz, em artigo recentemente publicado, se França, Inglaterra e Alemanha não tivessem renegociados suas dívidas no período do pós-guerra, ainda estariam pagando suas dívidas e hoje não seriam potências econômicas. A Grécia está fazendo o seu dever de casa. Reverteu uma situação de grande déficit primário para um superávit. Mas as autoridades monetárias da Europa exigem o impossível: um superávit primário de 4,5% do PIB. Como afirmou Stigliz, uma insanidade. 

A Grécia, berço da civilização ocidental, merece receber o mesmo tratamento, por parte de seu credores, que os países que hoje impõem a ela medidas de austeridade extremas obtiveram em relação às suas dívidas no passado. Um desfecho positivo na crise da dívida grega poderá sinalizar o começo de uma mudança de paradigma. O capitalismo só conseguirá sobreviver como um sistema sustentável caso a ética da competição pela competição, do lucro pelo lucro seja substituída por uma ética de cooperação e inclusão social. E isso vale entre continentes, blocos econômicos, países, instituições multilaterais, agências internacionais, empresas, organizações sociais, famílias e indivíduos.

A humanidade não pode ter chegado tão longe, depois de tantas exigências evolutivas, tantas pressões adaptativas, tantos processos aleatórios, tantas sucessões de eventos improváveis, tantas lutas pela sobrevivência, que possibilitaram uma existência em comum num planeta tão receptivo à vida, para no final das contas viver uma vida para consumo, lucro e dominação. Não faz sentido chegarmos até aqui para ser só isso. E aceitarmos que esse é o fim da história. Seria uma insanidade existencial coletiva.