sábado, 16 de maio de 2015

versos e formas

Heidi Whitman’s Invisible Cities 
Não me lembro dos últimos novembros
Quantos sóis delicados, céus azulados?
Quantas nuvens aflitas, chuvas amargas?
Sinto falta dos próximos setembros...
Ah, se eu pudesse apagar todos os dezembros!
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Ousei tanto
Tudo conquistar

Enquanto me usei
Até me esgarçar
Em quase pranto
Sequer incapaz
De nada alcançar
Só desencanto

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quero vagar pelo teu corpo
e abandonar meu corpo
inteiro no teu corpo
até o meu corpo
ser teu corpo
um corpo
corpo

corpo
um corpo
ser teu corpo
até o meu corpo
inteiro no teu corpo
e abandonar meu corpo
quero vagar pelo teu corpo
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vivo em carne viva
vivo à flor da pele
vivo a carne em vida
vivo a pele em flor
vivo a vida na carne
vivo a flor na pele
vivo a vida em vida
vivo em viva dor
vivo vivo o amor
sou carne, pele e flor
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um dia tudo acaba
e deixa a gente
inacabado
outro 
dia 
a gente 
acaba e deixa
tudo inacabado.
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Entre uma 
e outra novela, 
brasileiro bate panela.
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não sonho mais quando durmo
e quando acordo sonho mais
mas não acordo mais
quando sonho
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Dia que não existe
lugar de chegar,
corpo ou universo,
tudo é exílio.
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chego quase perto
perto quase toco
e quando mais
estou perto
desperto
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entre sonos rápidos
vigílias profundas
alguma lucidez
e o resto
loucura
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o sol distante
transforma a lua
em um pedaço de luz 
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sem alarde
uma lua delicada
descobriu o final da tarde
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Olhar escorre 
em sangue 
uma gota 
de dor,
congela.
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gota de sal
cai pura
queima
lava e
cura
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A dor de cada um,
a dor do outro,
a dor daqui,
a dor de lá,
de todo lugar.

A dor é uma só.
É a dor do mundo.
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tempo calado
acumulado
pelo silêncio
das palavras
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Tento durar, acabo.
Tento acabar, esqueço.
Tento esquecer, acordo.
Talvez acordar, já passou.
Não posso ficar, vou.
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Fui com tanta sede, até te exaurir. 
E da tua exaustão, se fez minha aridez. 
Exausto, sem uma gota, me esgoto. 
Incerto, deserto. E te liberto.
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De manhã 
Faz frio
À tarde
Faz vento
É noite
Faz tempo
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A manhã escurece
A tarde se esquece
A noite é tão longe
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à procura
da noite escura
não há mais cura
tardo a chegar
tão devagar
e só, então
anoitecer
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só me resta saltar
como um suicida 
na vida
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O frio aqueceu
A solidão abraçou 
A tristeza esqueceu
O tempo descansou
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teu rosto, desenhado à mão
teus contornos, esculturas
teus olhos, leves luzes
teus pés, delicadeza
tuas mãos, pétalas
tua boca, única
tua pele, sol
teu corpo
inteiro

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Exausto
De tanto
Partir
Exausto
De tanto
Vagar
De repente
Uma vontade
De chegar
E descansar
Em você
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Se eu pudesse
Só simplificar
Aproximar
Modificar
Adivinhar
Proteger
Cuidar
Aliviar
Fazer
Dar
Saber
Apagar
Acertar
Aprender
Responder
Demonstrar
Mas não posso
Em silêncio silencio
Nesse cortante deserto
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Alma desencantada
Das ruas dispersas
Desamores sólidos
Luzes insistentes
Restos humanos
Olhares baixos
Edifícios altos
Deselegância

Solidão árida
Indiscreta
Calor úmido
Hiperconexão
Ruídos incertos
Vidas desafetivas
Corpos disformes
Espelhados no sol
Uma cidade pelo chão

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As grandes corporações
Empregam multidões
De consumidores 
Não-renováveis
Descartáveis
Mercadorias
Trocáveis
Energias
Humanas
Desumanas
Empilháveis
Insustentáveis
Intercambiáveis
Por alguns tostões
Infinitas transações
Transmutadas em trilhões
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a beleza pode ser uma cor
um toque, uma respiração
a beleza pode ser uma dor
um rosto, uma fascinação
ou, simplesmente, um afeto
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quando um pedaço de sol
toca de leve na pele 
faz o corpo inteiro
solar
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Nasci na madrugada
Cresci por toda parte
Mudei a cada instante
Troquei de cidades
Identidades
Procurei o amor
Conheci a dor
E o prazer
De esquecer
Fui de tudo quase
Nada de quase tudo
Antes de começar
Insisti em desistir
Desperdicei 
Patrimônio
Renda
Pessoas
Não retive nada
Cheguei a lugar nenhum
Deixei o tempo pra trás
Voltei ao início
Não encontrei o fim
Recomecei o futuro
Renasci na madrugada
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(DES)CONEXÕES
Expelir, descartar, trocar
Vínculos, relações, desejos
Frágeis, voláteis, conflitantes
Prazer, tesão, tensão
Redes errantes
Liberdade forçada
Individualizada
Medos incertos
Rompimentos
Inquietos
Tão longe tão perto
Reviravoltas revoltas
Desengajamento
Dor sem dor, incolor
Múltiplas sedes
Rotas, intactas
Virtualidade
Quantidade
Fragilidade
Atitude, incompletude
Velocidade ou verdade?
Vaidade
Sexo desconexo
Descompromisso
Submisso
Atração repulsão
Em equilíbrio
Desequilíbrio 
Fendas
Rachaduras
Fragmentos
Profundos
Superficiais
Artificiais
Acasos em versos
Crônicas banais
Cortes rasos, secos
Vívidos, cíclicos, líquidos 
Consumos humanos
Insumos urbanos
Sangue no ar
Morte fugaz
Imensidão
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Não vou mais contar o tempo
Contabilizar memórias
Nem medir distâncias
Ou enumerar sonhos
Enfileirar demoras
Matemática?
Só se for a pura
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se a cidade
fosse minha
eu DERRUBAVA
muralhas
simbólicas
fronteiras
distópicas
catracas
travadas
moradas
cercadas
assentamentos
ilusórios
condomínios
predatórios
negócios
transitórios
tristes cidades
invisíveis
em desalento
se a cidade
fosse minha
eu ESCANCARAVA
diversidades
misturas
intensidades
aberturas
divindades
culturas
criatividades
ternuras
inventividades
curvaturas
felicidades
aberturas
possibilidades
criaturas
vivas cidades
visíveis
em movimento
se a cidade 
fosse minha
a cidade
seria NOSSA
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Equilibrar-se na crua incerteza 
Escolher todo dia no escuro
Colher a beleza do agora
Durar só o tempo que resta
Restar pelo instante que vai
Esvair-se na dura certeza
De ser abatido pelo infinito 
Fugaz, despedaçar no ar
Despetalar sombras aflitas
Deixar o vento de leve varrer
Na dureza de ser, perecer

Para nunca mais ter de morrer
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Fora Michel fora Temer fora
Um dia Temer fora Michel
Mas agora Michel treme
Toda hora Michel teme
Temer já não é Michel
Treme, teme e trama
Fora covarde Temer
Michel é fora Temer
Teme agora Temer
Hoje é fora Temer
E treme Michel
Fora já Temer
Temer fora já
Sem demora
Agora é fora
Fora Temer
Arremete
É hora
Treme
Temer
Fora
Temer
Treme
É hora 
Arremete
Fora Temer
Agora é fora
Sem demora
Temer fora já
Fora já Temer
E treme Michel
Hoje é fora Temer
Teme agora Temer
Michel é fora Temer
Fora covarde Temer
Treme, teme e trama
Temer já não é Michel
Toda hora Michel teme
Mas agora Michel treme
Um dia Temer fora Michel
Fora Michel fora Temer fora