segunda-feira, 18 de maio de 2015

Terno barato

Edifício Copan - Foto Isabela Kassow
São Paulo. Rua do Glicério. Centro velho. Chove forte. Ruas sujas.
Círculos de água, carros engarrafados, motocicletas, pedestres.
Calçadas apertas, pessoas pelo chão. O vento esfria meu corpo.
A caminhada me faz transpirar. Mistura térmica insuportável.
Meu sapato tem um furo pequeno. Os pés começam a molhar.
A chuva aperta, o vento acelera. Meus passos diminuem.
Sons silenciam. Escuto pensamentos. Burburinhos internos.
O barulho da luta diária pela sobrevivência humana. 

Não paro de pensar. Minhas meias estão encharcadas. 
Piso num buraco com água. Desvio obstáculos. 
Parados como fotos de jornal. Uma multidão sem rosto.
São poucos de mim. Todos iguais a mim. Somos só rostos.
O que pensam os cérebros desses rostos? Não importa.
Roupas molhadas. Sapato pesado. Frio e calor. Chuva e suor.
O burburinho aumenta. Voz, chuva e vento. Quatro da tarde. Almocei?
Esqueci a fome. Lembrei da sede. Boca seca. Cabelo molhado.
Debaixo de um guarda-chuva. Alguém toca sanfona. Só escuto imagens.
Um rosto aparece. Na minha cabeça. Memória confusa. Paisagem difusa.
Homens sem dentaduras. Nas ruas. Mulheres seminuas. 
Prostitutas. Dez reais. Fico com o vento. Subo a ladeira. Entre velhos hotéis.
Rua 25 de março. Dia 16 de novembro. Camelôs enfileirados. Espaço apertado.
Vendedores de guarda-chuva. Dez reais. Fico com a chuva. Não posso gastar.
Endividado. Contas atrasadas. Despejo. Só resta caminhar
Uma mulher muito idosa, magra, cabelos brancos, beleza impressionante. 
Quantos acasos vividos até que ela chegasse até aqui? Agora? Mais chuva. 
Meus olhos ardem, chuva ácida, a pele queima no vento da chuva.
Sinto tudo me consumir, até me dissipar. E se eu morresse agora? 
Se eu morresse nesse instante. Deixaria tudo inacabado. 
Seria o triunfo da minha desordem. Nem sei onde estou.  
Congestionamento. Carros parados. Ônibus lotados. Melhor caminhar. 
Agora já faz frio. A caminhada ralenta. Queria ser outra pessoa.
Trocar de mim por um instante. 
Mas tudo que tenho sou eu. Meus livros.
Sou o que sou agora. É isso. Não há o que eu possa fazer. Só continuar.
Minha pele silencia. Meus poros respiram. Meu corpo se cala. Esvazio.
Um homem, sapatos molhados, roupas encharcadas, bolsa pesada.
Posso caminhar até o infinito. Tento durar. Insisto. Na aridez, deserto.
Incerto, me liberto. 
Sem lugar de chegar. Nenhuma casa. Ninguém. 
Mais um dia sem lugar de chegar. Corpo ou universo, tudo é exílio.
Só um corpo molhado no tempo e no espaço dessa tarde de chuva. Nada a declarar.
Moro num quarto alugado. Uma estante pela metade. 
O sapato acabou. A calça encolheu. Estraguei meu paletó. Terno barato.
Salvei a gravata. Parou a chuva. O vento sopra de leve. Escureceu.
A noite pede um café.