segunda-feira, 18 de maio de 2015

Somos todos economistas

Smith-Marx-Schumpeter-Keynes
"Quando alguém crê, com a fé mais inabalável, que possui a verdade, deve saber que crê, e não crer que sabe". (Jules Lequier)

Passada a empolgação com a divulgação do balanço da Petrobras, quando nos tornamos todos contadores e analistas de demonstrações financeiras, parece que voltamos ao nosso posto habitual de economistas de plantão. De Nelson Motta a Lobão, as avaliações e análises macroeconômicas parecem não ter mais fim. O que me leva ao seguinte raciocínio. Se é praticamente impossível, por exemplo, avaliar a gestão de um síndico em três meses de mandato, mesmo tendo acesso a todos os documentos relativos a um condomínio residencial, imaginem avaliar um Ministério dispondo apenas de conhecimentos rudimentares na área econômica e de informações precárias e ideológicas extraídas de jornais, revistas e telejornais.

E para analisar um Ministério, como o da Fazenda, é preciso (além de acesso aos dados e estatísticas das inúmeras transações relativas ao Tesouro Nacional) ter ao menos algumas noções de teoria econômica, macroeconomia, economia do setor público, economia monetária, econometria, direito constitucional, direito financeiro, direito tributário, direito administrativo, contabilidade pública, contabilidade nacional, sistema de contas públicas, sistema financeiro nacional, lei de responsabilidade fiscal e algumas coisas mais que sequer faço ideia. Evidentemente não tenho essa qualificação. Também não conheço nenhum jornalista que disponha de tais conhecimentos, embora todos na grande mídia pareçam pós-doutores em economia do setor público, até aqueles que ganham a vida escrevendo sobre um pouco de tudo e de tudo, quase nada. A questão aqui não é a crítica em si, mas a falta de profundidade dos argumentos e a contundência dos veredictos. Assombra-me a certeza absoluta sobre tantas incertezas. Economias são dinâmicas. E seu estudo não pertence às ciências naturais. Há vários enfoques. Várias possibilidades. Poucas verdades absolutas, se é que elas existem. A mudança é a regra. A incerteza, o nome do jogo. Mas detestamos não ter respostas. Preferimos descansar em dogmas. E nos refugiar em maniqueísmos.

As limitações metodológicas para as análises são óbvias. Ou se tem algum conhecimento técnico mas não se dispõe de dados suficientes para análises. Ou se tem alguns dados, mas falta o conhecimento técnico. Ou faltam ambos. A maioria encontra-se nessa última hipótese. Sem falar no tempo que qualquer análise séria consome. Mas temos todos muita pressa. Talvez nem o ministro Levy e seus assessores estejam aptos a fazer uma autoavaliação dos efeitos de suas respectivas gestões na política econômica recente. Muito menos essa multidão de analistas econômicos que prolifera no Brasil. Vamos dar tempo ao tempo. Estudar mais, muito mais. Buscar mais dados confiáveis. Ouvir mais. Pensar mais. Falar menos quando não houver nada a acrescentar. Ter um pouco mais humildade. Ser mais pacientes. Ou então acender uma vela.