sábado, 16 de maio de 2015

Atenas versus Esparta

Os Doze Trabalhos de Hércules (Teatro Vannucci, 1984)

Um dia de verão seco. Caminhava pela rua da Consolação em direção ao centro de São Paulo. Era um começo de tarde. Sol a pino. Asfalto fervilhando. Carros enfileirados dissipando mais calor. Poluição, buzina, barulho, impaciência. O suor escorria pela testa. A garganta seca. Boca deserta. Sensação térmica de uns cinquenta graus. Mochila lotada de livros. Camisa molhada. Minhas pernas pareciam carregar o mundo. Tudo pesava. Até que me lembrei, sem mais nem menos, de um episódio dos anos 1980. Talvez 1983 ou 1984.

Lá pelos meus dezenove anos fui numa festa. Dessas que você nem sabe porque vai mas quando se dá conta já está lá. E sequer conhece o dono. Estava fazendo a peça "Os doze trabalhos de Hércules". Uma grande febre no Rio dos anos 1980. Várias futuros famosos no elenco. Malu Mader, Maurício Mattar, Marcello Novaes, Felipe Camargo, Alexandre Frota, Guilherme Fontes, Henrique Dias, Drica Moraes, Paula Lavigne. Éramos pequenas celebridades locais.

Toda noite surgia um convite pra alguma coisa. Toquei a campainha. Apartamento no Alto Leblon. Quem atende a porta com um cacho de uvas verdes na mão? Cazuza. No auge do Barão Vermelho. Não o conhecia pessoalmente. Imediatamente ele me olhou e disse:

- Nossa, você é tão espartano. E eu sou tão ateniense...

Fiquei mudo. Do alto da minha arrogância adolescente pensei: "quem esse cara pensa que é, nem me conhece, já vai falando besteira". Cumprimentei com a cabeça e entrei. Andando por São Paulo, três décadas depois, a frase do Cazuza me veio cristalina à cabeça. Como num estalo.

Cazuza tinha razão. Sempre tive a sensação de que o ser humano ficou frágil demais. Embora nossa longevidade tenha aumentado por conta do uso de antibióticos e outros medicamentos, que enganaram com eficácia a seleção natural, a verdade é que hoje somos fisicamente mais fragilizados como espécie. Qualquer desconforto físico nos arrebata.

De certa forma, a vida inteira busquei um ideal espartano. Jamais desprezei o corpo. E embora viva constantemente no mais profundo caos, sempre acreditei na disciplina. Cazuza conseguiu ler em poucos segundos o que trinta anos atrás não compreendia. Nunca admiti ser menos forte do que um soldado espartano. Ainda que idealmente.