segunda-feira, 18 de maio de 2015

Quando um carro vale mais do que mil palavras

Old Porsche
“Um homem com mais de 26 anos, dentro de um ônibus, pode se considerar um fracassado.” (Frase atribuída a Margaret Thatcher, 1986)

Eram dias de março em 2006. O mundo ainda não sonhava com a crise econômica mundial que estaria por vir dois anos depois. São Paulo seguia afluente, entre os afluentes. Modesta entre os modestos. Miserável entre os miseráveis.

Sempre fui uma mistura de tudo. A vida me ofereceu várias possibilidades. Em agradecimento, transitei por várias vidas. Na época, estava oscilando entre uma vida modesta e miserável. Até que não ganhava mal. Mas as despesas eram altas. Muito filho. Todos em escolas caras. 

O resultado se traduzia em situações sempre contrastantes. Em alguns momentos, quando passeava com meus filhos por exemplo, nos confundíamos com as famílias ricas. Ou melhor, éramos confundidos. Em outros, especialmente quando imprimia meu extrato bancário, vivia entre os miseráveis. No resto do tempo levava uma vida modesta.

Um dia meu filho caçula depois da aula foi brincar na casa de um amigo. Escola boa, mundo dos ricos. Alto da Lapa. Combinei de buscá-lo no por volta das oito da noite. Cheguei pontualmente. O pai do amigo me recebeu com alegria. Convidou-me para entrar. Ofereceu vinho, que recusei por estar de carro. A menção ao carro ofereceu pretexto para assunto. O sujeito era aficionado por carros. Colecionava carros esportivos. Em especial, Porsches.

Imediatamente fui levado a fazer um tour pela gigantesca garagem do pai do amigo do meu filho. Nunca me interessei por carros, mas por uma questão de sociabilidade demonstrei interesse. Um falso interesse que me custou duas horas. Meu filho e seu amigo adoraram. Saíram da rotina, comeram pizza, refrigerante, brincaram até mais tarde. Uma farra. Quanto a mim, fui exposto a história dos carros esportivos desde os primórdios aos dias de hoje. Carro, carro, carro. E mais carro.

Durante o monólogo automotivo, meu interlocutor expôs toda sua vida financeira. Salários, bônus, benefícios, aplicações, investimentos, propriedades. Se fosse eu um criminoso, teria obtido todas as informações necessárias para um grande assalto. Mas não era o caso. O próspero pai de família, homem de bem, estava seguro. O máximo que havia furtado em minha vida foi um gibi do jornaleiro Estevão, quando eu tinha sete anos. Que devolvi depois de ler.

Antes que o tédio me destruísse por inteiro, o pai do amigo do meu filho, agora meu amigo íntimo, começou a falar sobre temas variados. Assumiu como certas as nossas afinidades políticas e, piscando o olho como quem demonstra cumplicidade, disparou críticas ao papel do Estado na economia, advogou pelo corte de impostos, pela redução dos encargos trabalhistas, pelo fim das políticas assistencialistas, por penas mais duras, por mais repressão social e mais liberdade econômica. Uma mistura de Datena com Rodrigo Constantino. 

Meu tédio se transformou em adrenalina. Mas para não arruinar a noite do meu filho, concordei com a cabeça. E para demonstrar empatia, em meio a carros importados de vários tipos e modelos, completei: "Vivemos tempos difíceis". Dei-lhe um tapinha nas costas e disse que precisava ir embora. Inventei que no dia seguinte acordaria cedo e ainda teria que fazer mais sei lá o que, coisa de trabalho etc.

Desapontado, o pai do amigo do meu filho fez questão de anotar meus contatos. Disse para nos encontrarmos uma hora dessas para uma cerveja (importada) e continuar o ótimo papo. Ficou de me mostrar na próxima vez sua coleção de aviões em miniatura. Finalmente eu e meu filho fomos liberados. O pai do garoto fez questão de nos acompanhar até o meu carro. "A segurança aqui é ótima, mas é bom não facilitar", afirmou fazendo sinal de positivo para um agente de segurança particular que estava próximo a sua casa. 

Caminhamos até o meu carro. Abri a porta com a chave. Meu filho entrou no banco de trás. Um UNO 1999. modelo 2000. Finalmente seria recompensado pelas horas perdidas com a frivolidade alheia. Certos prazeres realmente não têm preço. O pai do garoto emudeceu. Seu olhar se desviou para o chão. Em estado de choque, o sujeito ainda perguntou: "Carro da empresa?". Respondi: "Não. Do banco. Ainda não quitei todas as prestações". O resto da cena se deu toda em silêncio. Dentro do carro, meu filho ainda acenou para o amigo. Partimos rumo à Marginal Pinheiros. Compartilhamos algumas risadas no caminho. Meu filho nunca mais foi convidado para brincar na casa daquele garoto. Tanto melhor.