sábado, 16 de maio de 2015

Por uma generosidade sincera

Paul Newman e Sidney Lumet, no set de O veredicto
Gravação noturna, última cena. O diretor grita:
- Corta! beleza pessoal, por hoje é isso... valeu o último take. Amanhã tem mais... beijos!
Os atores se despedem do diretor e saem do set em direção ao camarim.
- Nossa, adorei esse último take!
- Parece que rolou, né?
- Super... esse diretor também é incrível! e você foi de uma generosidade...
- Generosidade? acho que não.
- Como assim? claro que foi...
- De jeito nenhum.
- Nossa!
- Vou te dar um exemplo: quando eu dou um presente pro meu filho, não dou por generosidade, dou porque amo.
- Você tá querendo dizer que ama?
- Não, se eu fosse te dar um presente seria por generosidade, não por amor...
- Então, você nem ama, nem é generoso?
- Mais ou menos isso!
- Como assim?
- Em cena, não fui generoso nem amoroso com você.
- Então você quer dizer que não cabe nem generosidade nem amor na nossa profissão.
- Cabem sim, claro... generosidade e amor fazem parte da nossa profissão!
- Então você acha que a cena foi uma droga?
- Não, não é isso, fazer a cena foi incrível... se vai ficar boa já não sei... mas adorei fazer!
- Então onde entra a generosidade?
- Hoje em dia todo mundo quando se refere a alguém com quem contracenou diz: "nossa, ele foi de uma generosidade!"... ouvimos atores e atrizes dizerem isso o tempo todo... generosidade virou uma uma palavra "coringa"... vale pra qualquer situação... é o que normalmente dizemos de nossos colegas atores... talvez até por generosidade.
- Então você acha que não existe generosidade em cena?
- Em cena não... pode haver generosidade antes da cena, no set, no camarim, antes ou depois da gravação... posso levar uma caixa de chocolate pra galera... mas durante a gravação, se houver generosidade entre os atores, então a cena muito provavelmente não acontecerá.
- Como assim?
- Se sou generoso com o outro ator, a cena fica no campo da cordialidade, da moral, do bom-mocismo... dificilmente será uma grande cena... generosidade é um ato moral, um ato de escolha, uma deliberação... quando não amo, mas quero fazer o bem, sem exigir nada em troca, posso ser generoso... assim, é possível ser generoso sem amar... se dou uma boa gorjeta pra alguém que me atendeu bem estou sendo generoso, não faço por amor, mas por generosidade... mas quando dou um presente pra minha mulher ou pro meu filho, dou porque amo... 
- E o amor, onde entra na cena?
- Quando estou em cena, não sou generoso com ninguém... quando estou em cena, já há amor demais, angústia demais, exposição demais, egoísmo demais para ser generoso... amor por estar em cena, amor por estar em ação... pelo ato de contracenar... exposição demais por que atuar é estar exposto o tempo inteiro... egoísmo demais porque no final das contas o que a gente quer é ser reconhecido, ser amado, ser competente, agradar o outro... ser premiado... enfim, continuar trabalhando... então, se há generosidade em uma cena não é a de um ator em relação a outro... ela decorre da entrega do ator, que é generoso com sua arte por amor a ela, generosidade que está incluída no ato de amar e se confunde com ele... por amor à arte do ator, arte que exige tudo de você, sem poder prometer nada em troca além de rejeição sistemática e o risco de você passar sua vida anônimo, sem reconhecimento... ou se reconhecido, cair no esquecimento, ou se descobrir supérfluo, sem talento, mesmo com todo sucesso... arte que só pode dar a si mesma... e se sustentar no amor... jamais na generosidade.
- Nossa, mas então porque às vezes me sinto tão bem com um ator, com uma atriz, sinto que houve entrega mútua e outras vezes sinto exatamente o contrário... que estava sozinha em cena, abandonada... que não havia nenhuma química...
- São coisas inexplicáveis na nossa profissão, mas que não tem nada a ver com generosidade... igual no amor, você não ama porque escolhe... você escolhe porque ama... na cena é a mesma coisa... você não escolhe se entregar, não escolhe agir, a ação é a sua única escolha... se há entrega e sintonia, a despeito de todo egoísmo, de toda tensão, de toda loucura que é estar em cena, sendo o que você não é... sentindo o que você não sente por você mesmo... preocupado com o texto, com a luz, com a marcação, com o som, com o foco, com a continuidade, com suas rugas, com seu cabelo, com a sua voz, com a fala do outro ator, com a naturalidade pedida pelo diretor com uma piscadela de olho... se com tudo isso misturado, a cena acontecer... é porque tudo entrou em sintonia, inexplicavelmente... coletivamente... e isso pode acontecer até quando o outro ator não te dá nada na cena, porque não dar também é dar alguma coisa, isso pode te afetar e contribuir para a cena... a indiferença também é um afeto... e pode deixar a cena viva... percebe que quando uma cena acontece nada tem a ver com a presença da generosidade nem da falta dela... quando a cena acontece é magia, exceção inexprimível... o resultado é uma cena genial, inesquecível... como a do “Sindicato de Ladrões”, com o Marlon Brando e o Rod Steiger, que são irmãos no filme... cenas assim acontecem raramente... a maior parte do tempo estamos fazendo cenas corretas, eficientes, que funcionam bem na edição, que o público vai assimilar bem, que até o diretor vai adorar! mas que são cenas apenas corretas... igual uma partida de futebol, que na maior parte do jogo os jogadores estão só tocando a bola... de vez em quando sai um "gol de placa"... e quando isso acontece, provavelmente não é em razão da generosidade do atleta.
- Poxa, e agora o que eu vou dizer quando me perguntarem numa entrevista como foi contracenar com o fulano, tal e tal... era tão prático dizer que ele foi de uma generosidade...
- Melhor você buscar uma outra palavra... a generosidade não pode nunca ser a causa de uma grande cena... no máximo ela é o efeito do amor que o ator sente pela sua arte.
- O que você sugere então?
- Se você gostou de contracenar com alguém é que provavelmente essa pessoa tenha sido sincera em cena... que tal fazer o mesmo e dizer o que você realmente sentiu? Talvez seja mais generoso.