sábado, 16 de maio de 2015

Palavras aos quatro ventos

The Four Winds (Maarten de Vos Engraving)
Mesmo que o povo ainda tenha voz, não há mais ouvidos para escutá-lo.
---------
A eficiência democrática de Temer significará violência tecnocrática.

---------
Se admitirmos, simplificadamente, que o moralismo é algo que se refere à conduta do outro e que a moralidade, por sua vez, é algo que se refere à conduta de si, conclui-se que, no Brasil de hoje, vivemos tempos de moralismo rígido e moralidade frouxa.
----------
É preciso resistir, reexistir e impedir que o Estado brasileiro se transforme em uma tecnocracia teocrática/plutocrática de exceção e sem direitos. Ocupa Brasil.
----------
Infeliz é a nação cujos heróis são Cunha, Temer e Moro.
----------
Moro mira Lula, acerta Aécio & Cia. JN omite a lista. Bonner expõe seu cinismo em rede nacional. Merval muda de assunto. Jornalões focam em outra coisa. Oposição se esconde. MPF recusa acordo com a Odebrecht. E nada disso vem ao caso. Mais uma afronta à inteligência coletiva da nação.
----------
É no calor da emoção que o ser humano revela sua verdadeira face. É muito fácil simular a virtude nas águas calmas da razão.
----------
Antes ser filósofo de botequim que de praça de alimentação.
----------
No passado, artistas realizavam obras. Algumas, obras-primas. Depois, passaram a executar projetos. Agora, são todos partes de algum produto.
----------
Quantos séculos ainda serão necessários para as pessoas entenderem que na política tudo é político? Especialmente em uma democracia. Os interesses são conflitantes. Tudo é negociação. Tudo é barganha. Tudo é disputa. Toda decisão é, portanto, política. Desde os tempos imemoriais.
----------
Tudo que um escritor possui é o que escreve. Enquanto escreve. Depois de escrito, já não possui nada.
----------
O fato de o PSDB ser o partido diretamente ligado à classe empresarial não o transforma, necessariamente, em um partido dotado de eficácia gerencial no âmbito da administração pública. Ao contrário, o partido tem pregado a doutrina de que o melhor governo é aquele mais indiferente. E assim o PSDB tem agido em suas gestões: com o máximo de indiferença.
----------
A artificialidade já faz parte da natureza humana. O artificial é o novo natural. E vice-versa.
----------
Quando criança, os dedos das mãos enrugavam quando mergulhados na água por um longo tempo. Hoje reparei que meus dedos estavam enrugados. Mas minhas mãos estavam secas.
----------
Uma sociedade não é decadente por causa da corrupção. A corrupção é efeito da decadência de uma sociedade.
----------
Se a propaganda é a alma do negócio e o negócio é a alma do capitalismo, logo a propaganda é a alma da alma do capitalismo. E o consumismo sem alma, sua consequência lógica.
----------
Os meios de comunicação de massa são camaleões, cuja única coloração imutável é a cor da hipocrisia.
----------
Globalização: aos países ricos, proteção social e Estado de bem-estar; aos países pobres e em desenvolvimento, neoliberalismo selvagem e Estado mínimo.
----------
A grande imprensa brasileira é uma espécie de clube da canalhice "esclarecida". Mas não tão esclarecida assim. Na verdade, um tanto obscurantista. E canalha.
----------
O mundo cansou de ser remendado. Hora de se reinventar.
----------
Não fiquemos tão maravilhados com nossa própria virtude. Como o auto-engano é o maior dos enganos, ainda que sincera, a virtude pode ser apenas um disfarce para nossos vícios mais ocultos.
----------
Jornalistas econômicos brasileiros fazem suas análises como se a complexa economia de um país fosse a contabilidade de uma pequena padaria. 
----------
Agências de risco nunca tiveram credibilidade, mas o poder que elas detêm, na estrutura do capitalismo atual, é inegável. São coisas distintas: credibilidade e poder. O fato de terem poder e impactar países e empresas não significa que tenham credibilidade. E o fato de não terem credibilidade não significa que não detenham poder no mundo do capital financeiro. Por isso empresas e países muitas vezes se veem reféns dessas agências. É preciso romper esse ciclo de poder. A questão é como fazê-lo, com o mínimo de efeitos colaterais na economia.
----------
Aquele que avalia sua vida com base em resultados será eternamente infeliz. A vida só pode valer por ela mesma, porque sempre haverá mais possibilidades de realizações do que realizações possíveis. Escolhas implicam renúncias. As potências superam os atos. Mesmo quando conseguimos ir além, viver é estar sempre aquém. É o que é.
----------
As reações tecnocráticas às crises, ao eliminarem as políticas de cooperação, vão acabar por levar países à ruína e destruir democracias no mundo inteiro. Crises serão transformadas em catástrofes. Um novo absolutismo totalitário, legitimado pelas tecnocracias "modernizantes", e alimentado pelo capital financeiro, ganha força a cada dia. Nessa tragédia, a grande mídia funciona como corifeu e arauto. O cenário é o mundo. E o coro, somos todos nós.
----------
Interessante ver como os leitores se tornam ecos afinadíssimos das opiniões dos grandes jornais. Só que com mais paixão e mais entusiasmo. Basta dar uma olhada na seção de cartas dos leitores. Trata-se de uma ótima amostragem da cabeça do leitor médio brasileiro. Quando reproduzem conteúdos com tamanha obediência e dedicação, como se estivessem a espera de uma nota 10, os leitores se mostram mais alinhados com as ideias dos jornais do que os próprios editores. Dominação sutil, simbólica, cotidiana e eficaz. A criatura supera o criador.
----------
A classe artística brasileira é bastante conservadora. Só é revolucionária enquanto espera. A atitude inovadora, quando existe, é apenas um meio para se alcançar um fim específico: ser absorvido pelo grande mercado. Uma vez absorvidos, esses artistas se tornam mais conservadores do que as próprias instituições que os compraram. E passam o resto de suas vidas a defender seus confortáveis lugares. As exceções confirmam a regra.
----------
O problema da falta de regulamentação do setor de comunicações é que o capital se concentra cada vez mais e, assim, são formados monopólios e oligopólios. O resultado final é que praticamente toda a mídia, televisiva ou impressa, acaba por expressar a mesma opinião. Ao invocar a liberdade de expressão, nossos porta-vozes midiáticos servem aos poderosos de sempre. E aceitamos com obediência e submissão. 
----------
Meu "sonho de consumo" é viver numa sociedade em que o consumo não seja o sonho de ninguém.
----------
Ao ator em cena só resta se lançar à ação. Não há certezas. Nem garantias. É preciso saltar, como um suicida, na vida.
----------
Viver é muita coisa. Inclusive a capacidade de superar paralisias. O medo e a indignação são paralisantes. O primeiro é uma paralisia passiva. A segunda, uma paralisia ativa. Ambos paralisam a ação. E para viver, é preciso ir além. É preciso agir. Na vida, como no cinema, é sempre bom ouvir a palavra ação. 
----------
A adoção de uma vida simples, com baixos padrões de consumo, só é possível quando modificamos nossas crenças e valores. É uma mudança interna. Caso contrário, se permanecermos vivendo com base nos mesmos critérios de uma sociedade consumista, a mudança será apenas mais uma fonte de frustração e sofrimento. 
----------
Os jornalistas econômicos da grande mídia brasileira estão perplexos com o resultado do referendo da Grécia. Esse resultado, para alguns, é quase uma ofensa pessoal. Soldados do infortúnio, guardiões da austeridade, tomaram o "não" como heresia ao deus mercado, a quem são adoradores e devotos profissionais.
----------
Se o mundo é injusto; e o mundo é garantido pelo direito; e o direito é garantido pelas leis; logo, as leis são injustas. E vice-versa.
----------
O politicamente correto deu lugar ao cinicamente incorreto. A decadência humana parece não ter limites. Nem fim. Nem volta.
----------
O ideal de liberdade está para o indivíduo assim como o ideal de justiça está para a sociedade. 
----------
No Brasil de hoje, nossos heróis estão muito mais para inspetor Javert do que para Jean Valjean. E assim ficamos cada vez mais miseráveis.
----------
A humanidade não pode ter chegado tão longe, depois de tantas exigências evolutivas, tantas pressões adaptativas, tantos processos aleatórios, tantas sucessões de eventos improváveis, tantas lutas pela sobrevivência, que possibilitaram uma existência em comum num planeta tão receptivo à vida, para no final das contas viver uma vida para consumo, lucro e dominação. Não faz sentido chegarmos até aqui para ser só isso. E aceitarmos que esse é o fim da história. Seria uma insanidade existencial coletiva.
----------
A prova de que um produto novo é desnecessário está no gasto exorbitante com campanhas publicitárias a ele associadas. Se o produto fosse tão útil, não haveria necessidade de tantos gastos em publicidade para promovê-lo. 
----------
Economias podem prosperar apesar dos governos. Economias podem fracassar apesar dos mercados. E vice-versa. Economias podem fracassar apesar dos governos. Economias podem prosperar apesar dos mercados. E vice-versa. Economias podem prosperar por causa dos governos. Economias podem fracassar por causa dos mercados. E vice-versa. Economias podem fracassar por causa dos governos. Economias podem prosperar por causa dos mercados. E vice-versa.
----------
Exceto em países hipotéticos, cujas economias seriam 100% centralizadas ou, o seu contrário, 100% desregulamentadas, o resultado da atividade econômica de um país decorre da interação entre o setor público e o privado. Assim, da mesma forma que, quando as coisas vão bem, o sucesso não pode ser atribuído unicamente aos governos ou exclusivamente aos mercados, quando as coisas vão mal, os fracassos também não podem ser colocados integralmente na conta dos governos, nem dos mercados. Governos não são deuses. Tampouco os mercados o são. Mas podem ser demônios, se assim os transformarmos. Ambos, governos e mercados, são abstrações de nós mesmos. Representam escolhas humanas. Governos e mercados expressam a sociedade na qual estão inseridos. E somente a sociedade é capaz de mudá-los. Para o bem ou para o mal.
----------
O papel da grande imprensa brasileira não é informar. É instaurar medo e pânico na população. Especificamente em duas áreas: economia e segurança pública. Para tirar proveito desse medo, vende duas soluções: o mínimo de intervenção econômica e o máximo de repressão policial. O cidadão médio, sempre preocupado com suas posses, suas propriedades e sua integridade física, supostamente ameaçadas a todo instante, compra obedientemente o pacote. Seu sonho de consumo: menos impostos e mais cadeias. De preferências cadeias penitenciárias privatizadas. A imprensa mantém seus lucros. Deforma opiniões. Os cidadãos alimentam seus medos. Enganam suas esperanças. E o sistema é retroalimentado. 
----------
Existem pessoas viciadas em manifestar compulsivamente seus ceticismos cínicos ou seus cinismos céticos. Ou ambos. Simultânea ou isoladamente. Tanto faz. É uma espécie de "Complexo de Diogo Mainardi".
----------
Causas não precisam ser excludentes. Podem coexistir, desde que não sejam contraditórias. Causas tampouco devem ser patrulhadas. Cada qual com a sua causa. E se elas forem coletivas, tanto melhor.
----------
No Brasil, o direito à vida está em pé de igualdade com o direito à propriedade. Entre a vida e a propriedade, tanto faz para a Constituição Federal. Estão lado a lado, no mesmo artigo quinto. Mas para os juízes, não há dúvidas: a propriedade vem sempre em primeiro lugar. 
----------
Pão & Circo. Dizem que o Brasil é o país do pão e circo. Talvez. O Estado, com suas políticas direcionadas a promover inclusão social, garante o pão. Por sua vez, a grande imprensa, com suas reportagens direcionadas a instaurar convulsão social, oferece o circo. 
----------
Depois da crise de 2008 a ideologia neoliberal parecia haver se esgotado. Mas trata-se de um modelo cognitivo praticamente inatingível, que enxerga a economia como ciência natural. Como algo puro, clássico, apolíneo. Segundo essa crença, não há nada a ser feito a não ser adaptar-se às leis derivadas da ciência econômica. Seus defensores recusam o fato de que economia é uma questão de escolha. E se ainda não bastassem todas as lições da história, vivemos hoje tempos de crise sistêmica, que refletem a adoção indiscriminada do ideário neoliberal. Um curioso caso em que o fracasso subiu à cabeça. 
----------
Houve um tempo em que se dizia que tempo era dinheiro. Hoje, o dinheiro vale mais que o tempo. As pessoas vendem tempo em troca de dinheiro. E se o tempo é a soma de todos os instantes que temos para viver, tempo é igual a vida. Logo, hoje o dinheiro vale mais que a vida.
----------
A crise moral não está somente nos governos. Está em todos nós, governantes e governados. Somos parte de tudo que está aí, para o bem e para o mal. Mas colocamos sempre na conta dos "outros", como se vivêssemos alheios aos problemas atuais e como se a indignação fosse a única solução para o mundo. O problema maior é que costumamos pensar como Rousseau: a humanidade é boa mas a sociedade e as instituições a corrompem. No entanto, agimos como se vivemos no Leviatã de Hobbes, para quem o homem é o lobo do homem.
----------
Quando um algum fato é confirmado por um livro-texto de economia, isto é, pela ciência econômica ortodoxa, este fato denomina-se verdade. Por outro lado, quando um fato refuta a teoria econômica, este fato denomina-se crise. A teoria continua válida. A culpa é do fato. E da crise.
----------
Triste ver a ciência econômica ser utilizada em seus conceitos mais ultrapassados como instrumento principal de formulação de políticas públicas. A Economia ortodoxa, uma vez que não leva em conta quase nada do que é relevante em seus modelos, está cada vez mais obsoleta e perversa para ser utilizada como base para tomada de decisões. Matematizada, perniciosa, distante, a Economia, que já é conhecida com a ciência triste, está se tornando a ciência mórbida. É tempo de sacudir a poeira.
----------
Os ideais de justiça e liberdade só fazem sentido quando valem para todos. Quando são aplicáveis apenas a uma classe de privilegiados, ambos tornam-se apenas instrumentos de dominação e exploração. Simbólicas e reais. Num mundo cada vez mais desigual, o direito e a economia, em nome da justiça e da liberdade, têm sido suas as armas mais eficazes.
----------
Para os "instruídos", capitalismo é destruição criativa.
Para os excluídos, criação destrutiva.
----------
Atualmente, as grandes corporações regem o mundo. Os altos executivos regem as grandes corporações. Logo, os altos executivos regem o mundo atual. 
----------
No Brasil, somos obcecados por leis. Em especial as leis que protegem a propriedade. Mas se nos preocupássemos mais com o Estatuto da Criança e do Adolescente, com o Estatuto do Idoso e com o Estatuto das Cidades, e menos com o Código de Defesa do Consumidor, com o Código Civil e com a Lei de Responsabilidade Fiscal, o país seria um lugar com pessoas menos desagradáveis de se conviver.
----------
Se é pobre, é menor. Se é rico, é criança.
----------
Política ambiental sem inclusão social é fascismo. Inclusão social sem política ambiental é ignorância. Eis a questão relevante do mundo. O resto, mesmo com toda a lama, com toda a falta de grana, a gente vai levando.
----------
Muitos economistas se camuflam por meio de jargões ininteligíveis para excluir a população do debate democrático sobre questões de política econômica e usam "argumentos de autoridade" para disfarçar suas falácias e transformá-las em instrumento de dominação simbólica.
----------
Quem sabe o tempo vai acalmar o vento e o vento vai libertar o tempo.
----------
Hoje prefiro ler os clássicos aos jornais. A beleza tem sempre razão. Os fatos, nem sempre. E a interpretação deles, os fatos, muito menos. Talvez amanhã. Mas hoje, descanso nos clássicos.
----------
Usar a liberdade democrática para pedir intervenção das forças armadas é o mesmo que orar a Deus para que Ele não exista.
----------
Vida útil é só bom para máquinas e equipamentos. Para nós humanos, a vida boa é uma vida inútil. Vida inútil porque não utilitária. Vida que vale pelo que é. Vida que vale por ela mesma. Vida que vive para viver a vida que é. Inútil.
----------
Enquanto jornais vendem medo, leitores compram esperança. De uma vida sem medo. Medo e esperança, duas faces de uma mesma moeda. A moeda do adiamento da vida. Da vida que teme. Da vida que espera. Vida que desespera. A solução dos jornais: exclusão, expropriação, condominização, divisão, punição, prostração, indignação. Encarceramento. Abandono. Reação dos leitores. Mais medo. Uma vida em pânico.
----------
O neoliberalismo é um desses estranhos casos em que o fracasso sobe à cabeça. Suas prescrições não deram certo em país nenhum, em época nenhuma, não há sequer um caso de sucesso na história, mas seus defensores discursam com uma certeza que só a ignorância dos fatos pode trazer.
----------
Odeio o ódio, temo o medo, vaio a vaia e fico indignado com o sentimento de indignação. Assumo minhas contradições.
----------
Tudo aquilo que é atribuível exclusivamente ao outro e não pode ser atribuído a si mesmo não tem legitimidade. É viver numa zona de conforto que não me interessa.
----------
Nadar contra a corrente exaure o corpo e a mente, mas às vezes é a única forma de atravessar a vida.
----------
O falso moralismo é pior que o verdadeiro imoralismo. O primeiro contém uma parte do segundo, com o agravante da falsidade. O segundo, ao menos possui o atenuante da sinceridade.
----------
Triste um país cuja elite é tão brutalizada.
----------
Até o verão tem seus invernos.
----------
Quase tudo quer ser tudo. E quando tudo é tudo, o resultado é quase nada.
----------
Obviedades esquecidas: antes as guerras se faziam pela posse de terras; hoje as guerras reais e simbólicas se fazem pelo acesso aos mercados.
----------
Das "Diretas já" para "Direita já", lá vem o Brasil descendo a ladeira.
----------
Vivemos na era do cada um por si e todos por nenhum.
----------
No final das contas, os sábios da Antiguidade tinham razão. A Terra é plana, como uma tela touch screen.
----------
O ódio não está na crítica tampouco em seu objeto. Está dentro de cada um.
----------
A lei da terceirização é exemplo clássico do direito condicionado pelo poder econômico. Mais uma vez, a injustiça será transformada em lei.
----------
Ética e estética caminham juntas. Quando uma decai, a outra cai junto. E vice-versa.
----------
Se, ao contrário do que pretende nos convencer a grande mídia, estivéssemos vivendo uma profunda crise estrutural, como grande parte dos países europeus neste momento, em que o exemplo mais emblemático é a Grécia, cujo PIB encolheu 25% e a taxa de desemprego é de 25% (entre os jovens de até 30 anos ultrapassa os 50%), os brasileiros não teriam tempo para tanto ódio vazio, indignações difusas e atitude imobilista. Estaríamos numa luta extraordinária para sobreviver, ocupados demais para passarmos nossos dias repetindo os mesmos discursos moralizantes. Estaríamos, ainda que por instinto de sobrevivência, empregando todas as nossas forças para sair da crise. E a imprensa, ao menos uma grande parte dela, já teria falido e encerrado suas atividades. Enquanto estivermos só disparando cinismos para todos os lados é porque nem tudo vai tão mal assim.
----------
Andar a pé está ficando cada vez mais difícil nas grandes cidades. Há percursos em que simplesmente as calçadas acabam. Não há alternativas senão os veículos automotores. Apesar de sua obsolescência, o carro ainda está onipresente nas políticas públicas e em nossos desejos de consumo. Uma frase da Margaret Thatcher, proferida em 1986, “um homem com mais de 26 anos, dentro de um ônibus, pode se considerar um fracassado” ainda é predominante nos corações e mentes de grande parte dos brasileiros. O carro ainda é associado ao sucesso e à liberdade. Que o digam os cidadãos brasileiros afogados em dívidas e engarrafamentos, ambos associados à propriedade e ao uso do carro.
----------
No Brasil existe uma "tribo", imensa, localizada em várias regiões do país, Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul, que pouco se importa com a morte de bebês e crianças que são atingidos fatalmente quase que diariamente por balas perdidas nas favelas e nas periferias. O nome da "tribo" é indiferença e seus habitantes chamam-se brasileiros.
----------
Espiral do consumo. Quanto menos tempo gastamos para consumir, devido às facilidades de pagamento e entrega, mais tempo sobra para consumirmos outros bens. Quanto mais consumimos outros bens, menos tempo sobra para usufruir do que compramos. E como não temos tempo para usar o que compramos, sobra tempo ainda para adquirir mais e mais produtos. Que também não serão usados. Por falta de tempo. Mas se ainda sobrar algum tempo, por causa dos procedimentos comerciais rápidos e eficientes à disposição do consumidor, compra-se então um pouco mais. E quando não estamos consumindo, trabalhamos em troca de dinheiro para consumir mais e mais. Produtos. Tempo trocado por consumo. E assim, nossa vida é consumida.
----------
Milhões de microdecisões tomadas cotidianamente. Aquela rua. Uma viagem. O caminho escolhido. Livros abandonados. Um telefonema não atendido. A conversa interrompida. Um trabalho recusado. Aquele ônibus errado. Um pneu furado. A profissão ao acaso. Os amores vividos. Os amores perdidos. Um café da amanhã. O compromisso de amanhã. Como seria se não fosse assim? E como não seria por ter sido assim? O que teríamos sido se não fôssemos o que somos? A angústia da existência é o que ela poderia ter sido. E o mistério da vida é o que ela não foi.