sábado, 16 de maio de 2015

Se o inferno são os outros, eu sou o quê?

Jean-Paul Sartre (1905-1980)
Na peça de Sartre, Huis Clos (Entre quatro paredes), o personagem Garcin diz que "o inferno são os outros". Mas se o inferno é a consequência da miséria humana, logo os outros são a consequência da miséria humana. Portanto, a miséria humana é a causa do outro. E do inferno. Mas como sou também humano, serei eu culpado pela miséria do outro? Que é o inferno? Serei então eu o destino da nossa miséria? A conclusão lógica aponta para o "sim". Porque para o outro, o outro sou eu. Então para o outro, somos também "o outro"? Sim. Então, não há saída. Sejamos todos encarcerados! Sejamos queimados no inferno. Sejamos queimados "um" no "outro". Misturemo-nos em nossas chamas. Juntemos nossas cinzas, já que somos todos o inferno. Mas calma. Deve haver alguma saída. Ainda tenho a razão e a lógica. Pensa, meu cérebro. Pensa. Não me abandone às trevas, ao inferno, ao outro. Ora, isso só pode valer para todos, menos para mim. Sim, porque para mim, eu não sou o outro. É isso. Eu sou eu. Então eu sou a exceção. Os outros são os outros. Mas eu sou eu. O não-outro. Todos vocês são os outros, exceto eu. Vocês todos estão condenados. Mas eu, por não ser outra coisa senão eu mesmo, estou livre. Agora nada mais me constrange. Liberto. Das amarras do outro. Estou salvo da fogueira, do inferno, da culpa, do outro. Fui salvo por uma dedução lógica. Serei eu o novo Descartes? Penso, logo escapo de ser o inferno. Não importa. Sou o único sobrevivente do universo. Sou o paraíso. Eu. E apenas eu. Tão somente eu.