segunda-feira, 18 de maio de 2015

Wall Street não é aqui

Wall Street
"Tanta gente - dá susto de saber - e nenhum sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons..."
(João Guimarães Rosa)


As notícias sobre as altas e quedas da bolsa de valores despertam um efeito midiático de forte impacto no Brasil. Os grandes jornais utilizam as variações negativas da Bovespa muito mais para instaurar pânico e terror do que pela correspondência entre o valor das ações e a atividade econômica. E as variações positivas, para disseminar otimismo infundado, quando lhes convêm.

É um tipo de manchete irresistível porque é simples e intuitiva. Se cai a bolsa é porque tudo vai mal, imagina o senso comum. E vice-versa. Mas o mercado de ações possui um impacto muito mais simbólico do que real na nossa economia.

Ao contrário dos EUA, Reino Unido, Japão e tantos outros países, o mercado de capitais brasileiro é diminuto. Quase irrelevante. Muito pouca gente aplica em renda variável. Pouquíssimas empresas são de capital aberto e quase nenhuma pessoa jurídica capta recursos via emissão de ações. O mercado de capitais no Brasil nunca decolou. É apenas uma arena para especuladores ganharem muito dinheiro e desinformados pagarem a conta.

Somos o país da renda fixa. As grandes aplicações não estão bolsa de valores. Estão no mercado de títulos da dívida pública, atrelados às taxas de juros. Por isso a Selic sobe junto com a inflação. Para garantir rentabilidade das aplicações financeiras. E manter juros reais positivos. Descontada a inflação, os juros dos títulos de renda fixa devem sempre superar a caderneta de poupança.

Caso contrário, seria uma humilhação para os grandes bancos de investimento, localizados nas áreas mais nobres das metrópoles brasileiras, cujos produtos mais diferenciados são dependentes das taxas de juros reais. Já imaginaram os grandes fundos de investimentos perdendo em rentabilidade para a boa e velha caderneta de poupança. Tragédia. Isso aconteceu em 2011. Mas não por muito tempo.