segunda-feira, 18 de maio de 2015

O grau de integração vertical de uma empresa é uma decisão estratégica

O xadrez - Pablo Picasso
"Quanto maior a propriedade da empresa e controle sobre estágios sucessivos da cadeia de valor para o seu produto, maior é o seu grau de integração vertical." (Robert Morris Grant. Comtemporary Strategy Analysis: Concepts, Techniques, Applications)

O editorial de O Globo, mais uma vez empenhado na sua cruzada em prol da lei da terceirização, comete grave erro conceitual e induz o leitor a erro. O trecho a seguir é extraído da seção "Opinião", assinada pelo jornal, com o título “Mais segurança e emprego”. Vejamos:

“O avanço das cadeias multirregionais de produção transferiu para terceiros até a elaboração e montagem de partes vitais de veículos, aviões, computadores etc. Sempre motivado pela busca incessante da eficiência (mais qualidade e menores custos). Não há sindicato que possa barrar esse processo.”

O texto revela desconhecimento de termos básicos de economia e administração por parte de seu autor, e confunde o conceito de integração vertical, que em economia significa o grau de participação da empresa na sua cadeia produtiva, com o conceito de terceirização. Ao afirmar que nas cadeias multirregionais de produção uma empresa transfere para terceiros a elaboração de partes essenciais de seu produto final, o texto ingenuamente (ou deliberadamente) dá a entender que a aquisição de peças para montagem de um produto final é um ato de terceirização.

A utilização de fornecedores faz parte de decisões estratégicas da empresa quanto ao seu grau de integração vertical. Uma empresa, quando verticalmente integrada, é responsável por toda a cadeia produtiva, ou seja, extrai ou fabrica ela mesma todas as matérias-primas e produtos intermediários até que seu produto acabado chegue ao consumidor final. Na prática quase nenhuma empresa se envolve na produção de todas as etapas de sua cadeia produtiva. Para isso ela se utiliza de fornecedores e faz a gestão da cadeia de suprimentos. No Brasil e no mundo isso é permitido e não depende de regulamentação legal. É uma decisão estratégica de cada empresa e não se confunde com o conceito de terceirização de atividade-fim.

Na disciplina estratégia de negócios dos cursos de administração e economia, essas decisões são chamadas de decisões de "fazer ou comprar" e nada tem a ver com o objeto da Lei em discussão. Em seguida, o texto de O Globo completa o argumento com a seguinte frase: 
“A nova lei supera a questão bizantina da “atividade-fim” e da “atividade-meio” — na primeira, seria vetada a terceirização —, em sintonia com a realidade. E estabelece firmes garantias aos direitos dos terceirizados”.

Salta aos olhos o desconhecimento de conceitos básicos de Administração, Economia e Direito. Ora, terceirização não é sinônimo de gestão de cadeia de suprimentos. Adquirir de fornecedores peças que venham a integrar o produto final de uma empresa não é terceirizar atividade-fim. Não se terceirizam peças, partes, equipamentos. Terceirizam-se serviços e, portanto, pessoas.

Quando O Globo compra de um fornecedor o papel para impressão de seus jornais isso não é terceirização de atividade-fim. É decisão estratégica de não produzir ele mesmo todos os insumos que compõem o seu produto final. Faz parte da gestão de cadeia de suprimentos. Terceirizar atividade-fim, como quer a nova lei, e com o apoio ostensivo do jornal O Globo, é terceirizar atividades como, por exemplo, a de jornalistas e fotógrafos, que produzem o conteúdo do produto final a ser comercializado por uma empresa jornalística.


Com a nova lei, esses profissionais citados poderão ser terceirizados sem riscos de passivos trabalhistas por parte de empresas contratantes e sofrerão os impactos da nova lei. Isso é um exemplo claro de terceirizar atividade-fim. O resto é enrolação de editorialista que sequer se dá ao trabalho de pesquisar minimamente sobre o assunto que vai abordar, pressupondo que todos os leitores são como ele, ignorantes. Ou cínicos. Ou ambos. Simultaneamente.