sábado, 16 de maio de 2015

O cansaço e a preguiça de um economista

"O Brasil cansa. Como cansa! Especialmente em minha área, a economia". Assim abre o texto de Rodrigo Constantino, em artigo que faz uma critica ao livro de Mariana Mazzucato, intitulado Estado empreendedor: Desmascarando o mito do setor público vs. setor privado

De fato, alguns (de)formadores de opinião no Brasil cansam. Cansam por seu cansaço. Por sua preguiça. Cansaço ou preguiça intelectual, tanto faz. Afinal, o autor do artigo da Veja que critica a economista Mariana Mazzucato confessa que sequer leu o livro que diz “refutar”.
O articulista apresenta-se como economista para se valer do argumento de autoridade. Mas se autodestrói com suas próprias palavras de economista cansado. A contradição já começa logo de início, quando o autor diz que não tem tempo para debates que “parecem parados no tempo”. No texto infantilizado do autor, por preguiça ou cansaço intelectual, cita outros economistas para “refutar” o livro de Mariana Mazzucato, alegando falta de tempo, por parte dele, para tarefa tão enfadonha e inútil.

Contraditório, pois se o assunto não vale o "custo de oportunidade" do rapaz, que ganharia mais se dedicando a outras atividades mais nobres, por que então se dá ao trabalho de escrever o artigo? E como um bom neoliberal, terceiriza a tarefa. Dá a palavra para outros economistas. Mas confunde a palavra “refutar” com discordar. O autor não refuta. Discorda. Esperneia. Atira adjetivos e citações desconexas para todos os lados. Mistura ciências sociais aplicadas com ciências naturais. Mais deforma do que informa. O fato é que o debate só avança quando o pensamento não descansa. Conservadores se furtam ao debate, alegam cansaço porque o que desejam é que tudo permaneça como está. Se é para mudar, que mude para conservar, como no Leopardo, de Visconti.

O autor do artigo alega impaciência. Mas ciência só com paciência, escreveu Rimbaud. E se o que se quer é pressa e descanso, o autor do texto está no ramo errado. Ciências sociais aplicadas, como é o caso da Economia, dão muito trabalho. Exigem pesquisa. Dedicação. Análises aprofundadas. Como faz o livro de Mariana Mazzucato, que propõe uma nova forma de pensar as parcerias público-privadas. Não fala em soluções mágicas, não abusa de adjetivos. Trabalha com fatos e dados. E os interpreta de forma incansável, porque quem pensa profundamente não descansa. Avança. 


O livro é um estímulo para  enxergarmos além da ortodoxia dominante em economia. Sua proposta não é reativa. Não é binária, dicotômica. Não exclui, nem diminui a importância das forças de mercado. Mas vai mais longe. Suas ideias são inclusivas. Tanto nos meios, quando defende uma maior participação do Estado nos investimentos de risco (o que já vem acontecendo na prática mas sem o devido reconhecimento), quanto nos fins, aos propor uma distribuição mais inclusiva dos benefícios da inovação 

A autora também ultrapassa a questão normativa. Não se trata apenas de descrever como a participação do Estado na área de inovação deveria ser idealmente, mas como ela tem sido empiricamente. E o faz por meio de estudos de casos, que desfazem o mito de que a inovação só acontece quando as forças de mercado agem livremente, sem a presença de recursos públicos. O livro é um manifesto que desafia a lógica da socialização dos riscos e privatização dos benefícios. 

Mas economistas conservadores recusam-se ao debate. Preferem imaginar que a economia é uma ciência da natureza. Como a física, a biologia, a química. Não por acaso o autor conclui o texto fazendo uma analogia com o debate sobre a curvatura da Terra. Para o autor, não há o que se possa fazer. Não há o que aperfeiçoar. Basta descobrir as “leis” que regem a economia. E pronto. Para os liberais conservadores, essas leis já foram descobertas. Não há mais nada a descobrir. É o fim da história. Como o vento que venta, a chuva que chove, o corpo que cai, a economia, para os liberais conservadores, é regida por leis naturais. A mão invisível de Adam Smith é como a lei da gravidade. Irrefutável. Imutável. Só resta conservá-la. 


Em sua conclusão, o articulista da Veja, como um juiz inquisidor que condenava novas ideias à revelia dos fatos, sentencia:
"A sensação que fico é a de que, em economia, estamos debatendo ainda o que seria análogo ao debate se a Terra é redonda ou quadrada na física, em vez de focarmos nas nuanças do arredondamento terrestre. É muita perda de tempo valioso por culpa de uma esquerda retrógrada…"

Interessante a citação justamente de um caso de mudança de paradigma na ciência, que só foi possível porque pessoas "cansativas" dedicaram seus preciosos tempos de vida para desafiar dogmas indiscutíveis à época. O paradigma científico, afinal, só mudou porque pessoas corajosas ousaram pensar diferente. Não é difícil imaginar que se todos os habitantes do planeta, ao longo da história, pensassem à maneira de Rodrigo Constantino, muito provavelmente estaríamos até hoje acreditando que a Terra é plana. 

Para quem tiver interesse em ler o artigo da Veja, segue o link: http://naofo.de/4u3c