segunda-feira, 18 de maio de 2015

Lembranças inflacionárias de 2002

Armínio Fraga e Pedro Malan (2002)
"Os bancos e o setor financeiro pressionam por taxas de juros mais altas, temerosos de que a inflação afete o valor dos ativos financeiros. Talvez essa seja a consideração mais importante sobre o porquê de as taxas de juros reais no Brasil serem tão altas: a ameaça da inflação sobre o valor real dos créditos financeiros." (João Sayad)

A economia, no Brasil e no mundo, tem componentes cíclicos. O momento atual é difícil mas não há um colapso como muitos analistas econômicos desejariam. Os saques da poupança, anunciados pelos jornais como reflexos de uma inflação "galopante e descontrolada" no país, estão muito mais relacionados a alta da taxa Selic do que a crise atual.

O Banco Central, para conter a inflação, embora a medida seja questionável dada a desaceleração da economia, aumentou significativamente a Selic nos últimos meses e é natural que as aplicações migrem da poupança para outras aplicações de renda fixa atreladas à ela, cujos rendimentos são muito mais atraentes. 

Não obstante, nossos jornais instauram uma espécie de pânico cotidiano. Recentemente as manchetes econômicas dos principais jornais eram sobre os saques recordes da caderneta de poupança. O motivo, segundo os jornais, o desemprego galopante, instabilidade, medo, inflação descontrolada. Caos. Assim como na área de segurança pública, cujos índices de violência caem a cada ano, mas a grande imprensa nos faz crer o contrário, em economia o mecanismo de instauração de pânico e alarmismo é semelhante. Duas faces da mesma moeda.

Alguns dias depois das manchetes alarmantes acerca dos saques da poupança, que nos fazia imaginar estarmos vivendo numa economia em tempos de guerra, o jornal Valor Econômico, cujo perfil mais técnico de seus leitores exige informações mais acuradas, noticiou que os saques da poupança estavam sendo efetuados, em sua grande maioria, pelos grandes poupadores, em busca de aplicação mais rentáveis.

Em 2013 a Selic estava 7,25% ao ano. Naquele momento, a poupança estava mais rentável do que muitas aplicações em renda fixa. Agora a Selic está em 13,75% ao ano. A aplicação em Tesouro Direto, por exemplo, está muito mais rentável do que a poupança e tem praticamente o mesmo risco, ou seja, muito baixo. Isso explica muito mais corretamente os saques da poupança do que a alta da inflação. A inflação fechou 2014 em 6,41%, abaixo do teto da meta. Analisando o gráfico abaixo, é possível verificar que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estourou o teto da meta entre os anos de 2001 e 2004. Desde então, até dezembro de 2014, o IPCA esteve dentro da meta.

O limite da meta de inflação é de 6,5%, medida pelo IPCA. A inflação projetada para 2015 está em 8,39% ao ano, portanto 1,89 pontos percentuais acima do teto estabelecido pela meta. Um IPCA menos de dois pontos percentuais acima da meta não é suficiente para o pânico alardeado pela mídia. Em 2002, o IPCA fechou em 12,53%, em torno de seis pontos percentuais acima do teto máximo da meta. E o mundo não acabou em 2002. A economia retomou sua força e a inflação foi controlada.