segunda-feira, 18 de maio de 2015

Juízos cotidianos, demasiadamente humanos

Foto Isabela Kassow
"Me mostra o homem que não é escravo da paixão."
(Hamlet, William Shakespeare)

A questão não é como avaliamos isso ou aquilo, nem a "nota" que damos para este ou aquele país, governo, partido, empresa, grupo ou indivíduo. A questão é: qual o nosso conhecimento sobre um determinado objeto para que tenhamos condições de avaliá-lo com tanta convicção?

Ou, ainda, o que sentimos emocionalmente sobre o assunto em análise? Será que esse sentimento influencia a nossa avaliação? E, finalmente, quais os interesses envolvidos que nos levam a esta ou aquela conclusão numa avaliação supostamente objetiva?

Na maior parte das vezes, mesmo em nosso campo profissional ou em áreas de nosso interesse, dispomos de poucas ferramentas para analisar, julgar e avaliar profundamente alguma coisa. Que dirá em campos alheios e distantes. Seguimos instintos, apetites, paixões, opiniões, próprias e alheias, tudo misturado. E a essa polifonia de signos, tentamos dar algum verniz de racionalidade e discursar com alguma lógica persuasiva.

Mas sobre a complexidade do real, temos quase sempre informações apenas parciais, enviesadas, muito distantes de nossas capacidades analíticas e, principalmente, das nossas realidades cotidianas. Acabamos na maior parte do tempo tomando a parte pelo todo. Mas quem resiste a ser juiz do que quer que seja?

Quanto a mim, diante da minha irrelevância, tento sempre me controlar com um mínimo de elegância. Mas, diante da relevância de tanta deselegância, não consigo me furtar ao debate. E aqui estou, mais uma vez, a me expor e a formular juízos cotidianos. Também não resisto a ser juiz. Sou demasiado humano. Então julgo, ainda que apenas para me absolver. Julgo com o coração. Com paixão e emoção. Ambas disfarçadas pela razão. Julgar tudo e todos parece nos aliviar. Insensatez? Talvez. É o que é.