quarta-feira, 20 de maio de 2015

Indignações seletivas

Luis Antônio Martinez Corrêa
Muito triste a morte do ciclista na Lagoa Rodrigo de Freitas ocorrida no último mês de maio. Mas este fato não pode ser justificativa para que agendas extremadas floresçam. É igualmente triste ver reações irracionais que trazem à tona temas como a pena de morte, a redução da maioridade penal, a legalização de porte de armas e muitos outros.

Na realidade, há todos os dias crianças e adultos assassinados em áreas menos nobres da cidade e ninguém ousa se indignar por eles, tampouco defendê-los. Há uma espécie de indignação seletiva. O valor da morte é diretamente proporcional ao lugar que a vítima ocupa na escala social e econômica do país.

A opção sexual também influencia na indignação. Meu tio, Luis Antônio Martinez Corrêa, diretor teatral premiadíssimo, foi assassinado em 1987, aos 37 anos de idade, com mais de 100 facadas. Não houve comoção. Apenas algumas manifestações isoladas da classe artística. Os criminosos eram garotos de classe média da zona sul do Rio e o crime foi associado à homofobia. Um tabu que, para as mentes mais conservadoras, quase justificava o crime. Mas a dor é igual. Não importa se a vítima é rica, pobre, branca, preta, mulata, oriental, indígena, heterossexual, homossexual, religiosa, agnóstica, ateia, brasileira, estrangeira. Nenhuma morte violenta é admissível. Todo assassinato é uma tragédia.